sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre a crise civilizatória e os espelhinhos

Em uma provocação nas redes sociais, o cientista político Moysés Pinto Neto questiona à sua rede sobre o que deveríamos fazer para evitar o avanço do nazi-fascismo na política. A provocação, obviamente, é muito bem vinda pois ocorre quase que imediatamente após a marcha dos supremacistas na Virgínia e o anuncio de que o candidato proto-fascista brazuca Jair Messias, já obtém 25% das intenções de voto.

De nodo um tanto jocoso, sugeri que fossem distribuídos ‘espelhinhos’ aos brasileiros, como no início da colonização. A esperança era de que, quem sabe, olhando-se no espelho, o brasileiro talvez pudesse se reconhecer como exatamente o oposto do que se propõe um marcha pela ‘supremacia branca’.

Somos um povo tão mestiço, que o simples ‘olhar no espelho’ deveria ser suficiente para afastar o fantasma do nazi-fascismo. Na ‘melhor das hipóteses’ um branco brasileiro descendente ‘puro’ dos portugueses já chega aqui como um amálgama de dezenas de diferentes povos: iberos, celtas, latinos, germânicos, alanos (iranianos), berberes (mouros), ciganos e judeus estão na formação étnica de Portugal. Se você se olhar no espelho e ver um louro, branco de olhos azuis, a partir de uma concepção racial, o mais provável é que você que esteja na latitude ‘errada’.

Mas isso é só o preâmbulo. O Brasil só faz sentido enquanto nação, se for capaz de abraçar a diversidade étnico-racial que o compõe. Por isso nada mais contraditório do que uma ‘defesa da civilização brasileira’ que se baseie em uma concepção restrita do que é essa civilização e do que pode significar essa identidade brasileira.

Segundo o IBGE de 2010 temos 47,51% da população que se declara como branca, enquanto a outra parte maior se divide entre pardos (43,42%), pretos (7,52%), indígenas (0,43%) e amarelos (1,11%).
Entre os povos indígenas, o mesmo IBGE nos fala de 305 diferentes povos e 264 diferentes línguas no Brasil.

Temos diferenças regionais que distanciam os olhares e perspectivas de um brasileiro morador de uma área ribeirinha do Pará ou de uma capital como Curitiba. Cada um tem uma ideia diferente do que é ser brasileiro, ainda assim, os dois o são.

Esses apontamentos trazem obviedades que, espero, sejam conhecidas pela maioria das pessoas. O ponto é: somente faz sentido uma defesa da civilização que abarque todas as possibilidades civilizatórias em nosso território. Qualquer tentativa ou iniciativa de padronização ou de redução a um molde, ainda que se apresente como ‘defesa da civilização’, será justamente o contrário disso: a destruição do enorme conjunto de possibilidades civilizatórias em nosso país.

Nos EUA, os grupos que se opõe à concepção supremacista branca, o fazem a partir de uma defesa da diversidade cosmopolita que passou a identificar metrópoles como Nova Yorque ou ainda, a cooperação entre gente de tantas partes diferentes do mundo que proporciona os avanços tecnológicos do vale do silício. A questão é que se para eles: uma nação branca, anglo-saxônica e protestante, a defesa da diversidade tem importância, para nós, brasileiros isso é bem mais importante: a diversidade é a espinha dorsal de nossa identidade.

Realmente não consigo levar com seriedade ‘supremacistas brancos’ brasileiros.
Para os supremacistas do norte, não somos brancos, jamais seremos. Somos latinos, ibéricos, hispano-americanos. Ser mestiço é parte de nossa identidade.

Ainda assim, ouço as vozes de Charoltesville ecoando por aqui. Claro que seremos incapazes de promover algo como uma ‘homogenização da raça’. É infactível. Mas talvez caminhemos para algo como um auto-etnocídio enquanto nação e enquanto possibilidade civilizatória.

A crise política, econômica e civilizatória, é sobretudo, uma crise de identidade. Precisamos aprender a nos olhar no espelho e afastar a repulsa de quem não vê um ‘branco, anglo-saxão, protestante’. Precisamos olhar no espelho e aprender a amar quem de fato somos, ou quem sabe, melhor ainda: amar aquilo que ainda poderemos ser, se não matarmos antes todas as possibilidades civilizatórias contidas em nosso território.


Eu como brasileiro, não posso aceitar um país menor do que o que ele é. Nenhum brasileiro deveria.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O equívoco Neoxamânico é gigantesco. Mas em nosso mundo, o que não é?

Faço esse texto estimulado sobretudo pelo irrepreensível artigo do Dr. Jacques Mabit, publicado originalmente na ‘Revues Synodies “Le transpersonnel?” e traduzido do francês para o português por José Pimenta. (1)

O artigo trata essencialmente de como os brancos vem idealizando seus ‘gurus indígenas’, e de como, entre outras coisas, trata-se de um grande equívoco comparar pajés, xamãs e curandeiros com os mestres transcendentais das tradições orientais. De fato, há uma grande confusão na tentativa de fazer encaixar o xamanismo ayahuasqueiro amazônico dentro das expectativas de transcendência das classes médias urbanas. Por isso, recomendo muito a leitura do artigo: O MAL-ENTENDIDO NEOXAMÂNICO PODE SER GIGANTESCO, publicado no blog Crônicas Indigenistas.
Esta breve postagem, não se trata portanto exatamente de uma crítica ao artigo. Apenas o tomo como ponto de partida para prosseguir na reflexão.

Pois sim, voltando ao título-pergunta: O equívoco Neoxamânico é gigantesco. Mas o que em nosso mundo, não é?

Afinal, corremos o risco de achar que o mal-entendido esteja delimitado ao universo do ‘neoxamanismo’. Ah! Se sêsse! Diria o poeta nordestino.
Poderia começar apontando os equívocos a um dos pilares do pensamento ocidental: a concepção aristotélica que divide homem e animal, natureza e cultura. Aristóteles nos fez crer que os animais não possuiam linguagem e com base nessa concepção EQUIVOCADA construiu a base do pensamento ocidental.  Contudo, quanto mais evoluem os métodos de observação científica, mas difícil fica determinar uma linha exata que nos separe dos animais. Animais tem linguagem. Animais produzem ferramentas. Animais têm organizações sociais mais complexas do que supunham nossos preconceitos. Animais transmitem conhecimentos adquiridos. Um equívoco bem maior e de consequências bem mais nefastas. E que no entanto, está nas bases do pensamento ocidental.

Outra base de nosso pensamento ocidental se dá pelo paradigma judaico-cristão. Noções de céu e inferno, pecado e perdão, Deus e o Diabo permanecem vivas em nossa sociedade e continuam a influenciar nosso modo de pensar. Mesmo àqueles que se dizem ateus. Trata-se pois, de ideias que formam a base de nossa civilização, que podem não passar de um grande equívoco, ou uma coleção de concepções equivocadas, forjadas ao longo do tempo para melhor acomodar os conceitos sociais de cada época.

Poderia ainda passar dias debatendo sobre as linhas filosóficas e suas refutações e contra-refutações que tão brilhantemente ocupam a vida acadêmica. Aliás, o que seria da vida acadêmica sem os equívocos.

Digo isso, quase como uma forma de ‘aliviar’ a turma do neoxamanismo. Não haveria como jovens de classe média urbana ‘acertarem’ de primeira quais os ‘valores’ que movem o ‘xamanismo de raiz’.

Quem está em uma busca, nunca sabe ao certo o que vai encontrar. Colombo, por exemplo, encontrou a América, mas buscava a Índia. Mais um equívoco histórico.

‘A sociedade de consumo faz florescer esta forma de xamanismo’

E por falar em ‘valores’, mais um equívoco: a ideia de que a cobrança em valores monetários seja uma ‘deturpação’ dos ‘valores espirituais’ do xamanismo. Um concepção equivocada. Sobre isso, recomendo muito a leitura do texto ‘As raízes do Xamanismo Moderno’, de Gayle Highpine.(2). É dela a frase neste subtítulo: ‘A sociedade de consumo faz florescer esta forma de xamanismo’
Em seu artigo, a etnobotânica esclarece que já era comum antes mesmo da chegada do homem branco, nas comunidades do Alto rio Napo, que seus xamãs cobrassem algum tipo de ressarcimento quando realizavam trabalhos fora de suas comunidades. A autora explica que o pajé ou xamã está obrigado por laços de parentesco, a cuidar de sua comunidade. Em troca, recebe o cuidado da sua comunidade para consigo. Para além destes limites, não há obrigação e portanto, há que se buscar novas formas de compensação. A autora ainda discorre que, foi justamente esta fluidez que possibilitou no passado o surgimento de uma rica cultura ayahuasqueira, espalhada pela Amazônia ocidental entre as bacias dos rios Napo, Ucaially e Putumayo - com as trocas de informações entre as diferentes comunidades. Segundo a autora, esse movimento seria responsável pelo florescimento HOJE desta cultura ayahuasqueira.
Se olharmos para o passado, de povos indígenas que viviam, não isolados, mas como uma intrínseca rede de cooperação e colaboração (e às vezes conflitos também, que ninguém é de ferro!), talvez não nos surpreendamos tanto, com a reprodução destas redes na sociedade pós-industrial.
Essa é uma das razões pela qual não vejo com maus olhos, todo esse movimento em torno do rapé, ou mesmo da ayahuasca por exemplo. Significa um aporte financeiro a estas comunidades, cujas necessidades não irão cessar caso este fluxo seja interrompido. Quem já visitou uma comunidade no Acre, por exemplo, sabe da grande necessidade de combustível e peças de reposição para embarcações. Além é claro de necessidades individuais que surgem a partir do contato. Não serão nossas utopias de ‘pureza transcendental’ que irão melhorar suas condições de vida.
Um dos resultados práticos desse movimento, é o maior interesse dos jovens indígenas, pela forma de fazeres e reprodução cultural. A possibilidade de algum ganho material, reforça esse interesse.  

O Xamã como ‘aquele que sai’   

Outro aspecto que merece ser destacado é sobre as idas e vindas de pajés e aprendizes. Diz o preconceito comum de que ‘índio deve ficar na aldeia’. Mas não é assim que era no passado, quando os povos indígenas podiam andar livremente pelo continente. Estão suficientemente documentadas as relações de comércio que ocorriam na América antes da chegada do homem branco. É certo que estas relações não se limitavam apenas ao comércio tal qual como concebemos hoje. É possível que ocorressem de modo mais ou menos cerimonial e ritualístico, já que boa parte destes objetos de troca possuíam valor simbólico, afetivo, espiritual, ou mágico, como por exemplo: conchas e penas. Talvez nos surpreendêssemos ao descobrir que alguns dos itens do chamado ‘comércio do sagrado’ já eram negociados antes mesmo de Colombo. De maneira análoga, podemos pensar nas feiras medievais e o comércio associado de imagens e relíquias. Ou seja, nada de novo sob o Sol.
Eduardo Luna vai mais além: ‘O Xamã é aquele que transcende os limites da sociedade e vai para fora, onde há poder’. (3)
É possível pensar que os xamãs que alcançam mundos distantes através dos sonhos e das plantas maestras, aprenderam também a viajar pelas mesmas ‘Veias abertas da América Latina’ de onde foi retirado ouro, prata, diamantes, madeira... E quem irá poder condená-los por isso?

‘Equivocação controlada’

A antropóloga da USP Aline Ferreira Oliveira, em seu artigo (4), cita a expressão cunhada por Viveiros de Castro de ‘equivocação controlada’, para explicar o uso e adaptação da linguagem dos pajés amazônicos ao contexto urbano.
Diria que não há outro caminho para o encontro entre jovens de classe média urbana e pajés (ou aprendizes) amazônicos que não passe pelo equívoco. Para entender-se e fazer-se entender é preciso minimamente ‘equivocar-se’, mas trata-se de uma ‘equivocação controlada’ sem o que, afinal, não haveria linguagem possível.  
É ainda a mesma autora que nos fala sobre a ‘produção dos corpos para circulação do conhecimento’ por meio das dietas, tal qual vem ocorrendo especialmente entre os Yawanawá e Huni Kuin.
Os indígenas tem tratado portanto, de ‘capacitar os brancos a fazer bem feito’, em um processo que podemos compreender como a continuidade, ou uma nova etapa daquilo que os indígenas do Acre denominam ‘amansar os brancos’.

Viva o vazio da Classe Média!

Por fim, queria aqui dar um viva ao vazio da classe média! Dizem as filosofias orientais que somente um copo vazio pode receber um novo conteúdo. Aliás, eu próprio venho há anos tentando esvaziar o meu, e olha... Que difícil!
Estes jovens de classe média urbana que não veem mais motivação em trocar de carro todo ano, frequentar o clube da moda, ou assistir à UFC estão se voltando, de um jeito de outro, às culturas antigas, porém vivas de povos milenares e que, ainda que equivocadamente, certamente tem muito a nos ensinar.
Se tivesse algo a lamentar sobre todo este processo, não seria pelas viagens dos pajés ou a comercialização em torno do sagrado, mas principalmente pela carência de uma maior organização formal que pudesse melhor interpretar, reinterpretar, debater, discutir, explicar a rica epistemologia que envolve este aprendizado. Lamento não haver algo semelhante a uma universidade em que tudo isso pudesse ser ensinado de maneira mais ou menos sistematizada e que houvessem até quem sabe, bolsas de estudo. Lamento sobretudo saber que sábios da floresta como, Tatá, falecido no ano passado, se vão sem deixar rastro (ainda que deixem sim, muitos discípulos, graças em parte a todo esse movimento) ou como o centenário Yawarani, cuja profundidade do entendimento da cultura Yawanawá o faz um erudito, sem contudo obter o reconhecimento que deveria da sociedade.
Os processos que ocorrem hoje, dentro daquilo que alguns denominam como sendo o ‘circuito do exotismo no Brasil’ ainda que ‘mal enjambrada’ se apresenta como a melhor saída possível para a permanência e reprodução de uma forma de conhecimento. 

Empatia e Alianças

É preciso que se diga também que nestas trocas há ainda um subproduto muito valioso: a empatia. São tempos duros para os indígenas no Brasil (sempre foram, mas ultimamente a ofensiva parece ainda maior). Angariar a empatia no meio urbano e tratar de estreitar laços com potenciais aliados me parece ser parte de uma estratégia política ainda mais ampla e quem vem sendo alcançada com relativo sucesso. Alianças proporcionam uma troca de maior valor que pode beneficiar a um indígena específico, um grupo, ou a toda comunidade. Cada povo tem uma dinâmica diferente em relação a construção destas alianças mas quão bom seria se todos pudessem contar com uma rede de apoiadores no meio urbano.

Auto Regulação

Me soa meio distópica a ideia de órgãos federais regulando o livre trânsito das medicinas, itens do ‘sagrado’ (em alguns casos acho justificável, quando por exemplo, trata-se material proveniente de animais silvestres) e mesmo do conhecimento.

Por isso penso que o melhor seria a auto-regulação.
Não se pode debitar na conta do neoxamanismo a existência de falsos pajés. Falsos médicos, falsos advogados e falsos jornalistas estão aí aos montes, mesmo sendo estas profissões regulamentadas (exceto jornalismo, graças a Gilmar Mendes). Em suas respectivas aldeias, contudo, todos sabem quem é e quem não é pajé e o ‘processo de certificação’ posso garantir que é bem mais rigoroso que o exame da OAB, por exemplo.

Mais interessante que termos um órgão oficial emitindo ‘carteirinhas de pajé’, seria se estas próprias comunidades fossem capazes de definir isso. Nos países vizinhos, Equador, Colômbia e Peru existem formas de federações que dão algum respaldo a isso, apesar que no final das contas o que vale mesmo é a reputação construída na própria comunidade. Ainda assim, parece ser uma alternativa interessante que daria algum respaldo oficial aos indígenas em viagem e quem sabe, responder quando algum órgão de governo, empresa, ONG ou meio de comunicação meter os pés pelas mãos, como aconteceu com a Folha de São Paulo na reportagem sobre ‘Rapé na Balada’.

Se observarmos com atenção, talvez vejamos que há muito menos de exótico nessas trocas entre indígenas e brancos de classe média do que se imagina.

O exotismo aliás, é como o sagrado: está nos olhos de quem vê.


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1. MARBIT, Jacques. Traduzido por José Pimenta. O Mal-Entedido Xamânico pode ser Gigantesco. 2. HIGHPINE, Gayle. 'As Raízes do Xamanismo Ayahuasqueiro Moderno' fragmento de 'Unraveling the Misteries of the ayahuasca origins'
3. LUNA, Luis Eduardo. 'Ayahuasca e o Conceito de Realidade'
4. OLIVEIRA, Aline Ferreira.Plantas, dietas, éticas yawanawa: iniciações xamânicas contemporâneas.(FFLCH/USP/Universidade de São Paulo).

Imagem: Al Vivero

IMDr. Jacques Mabit

terça-feira, 25 de julho de 2017

‘Rapé na Balada’ ou a desonestidade intelectual da Folha de São Paulo

Com o título ‘Rapé da Amazônia conquista adeptos em bares e baladas’ a matéria publicada no impresso AGORA da FSP e reproduzido no caderno de cotidiano da Folha de S. Paulo On Line, não passa de um produto barato de profundo desconhecimento e desonestidade intelectual.

No primeiro parágrafo, a matéria refere-se ao ‘pó alucinógeno no limite da legalidade’, e daí partem os mais flagrantes engodos destinados a ludibriar o leitor, causando de modo artificial, indignação, medo e preocupações.

A suposta ‘ilegalidade’ seria por conter o rapé DMT – Dimetil Triptamina, um alcaloide de uso proibido pela ANVISA. É totalmente inverídica a informação de quer o rapé tradicional da Amazônia leva DMT. A matéria se refere especificamente ao povo Huni Kuin. As plantas usadas pelos Huni Kuin estão catalogadas no livro Una Isi Kayawá – o Livro da Cura, feita em parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Informação disponível que o repórter ignorou. Muitas plantas podem conter DMT, em doses variadas, mas a proibição da ANVISA só pode regular de fato o DMT isolado ou sintetizado.

A primeira desonestidade é chamar de ‘Rapé da Amazônia’ um rapé supostamente adulterado com DMT isolado ou sintetizado por razões e métodos que a matéria não esclarece, mas que fogem totalmente das capacidades de produção do rapé nas aldeias.

Rapé tradicional 


Tampouco há qualquer registro de que o 'rapé da amazônia' seja alucinógeno. Chamá-lo de 'Pó Alucinógeno' é ultrapassar o limite da responsabilidade.

Desenho feito a partir da imagem do pajé Agostinho 'Iká Muru', autor do livro Una Isi Kayawá
O que teria embasado o repórter a chamá-lo de 'pó alucinógeno'? Por acaso experimentou? Entrevistou especialistas? Meus caros, nem com muita vontade e força de expressão o rapé explicitado na matéria seria 'alucinógeno'. 

Há também na escolha do título; ‘Ganha adeptos nas Baladas’. A leitura do próprio conteúdo da matéria, nos mostra algo totalmente diferente do que é sugerido. A matéria descreve antes, uma cerimônia própria para o uso de rapé conduzida por um Huni Kuin, em que segundo a matéria ‘são entoados cânticos’. Ora, a reportagem se refere ao um ritual próprio e não a uma balada. É o oposto do que diz o título.

Em nenhum momento, há a descrição de uso indiscriminado do rapé em baladas. De concreto, o que existe é a afirmação de um único entrevistado: “O advogado Glauco Paone, 52 anos, diz usar rapé esporadicamente, em bares na Vila Madalena... “Gosto de usar na balada, dá uma boa acalmada, mas prefiro usar em casa”. Esta foi em toda reportagem a única referência explícita à ‘balada’. Outra entrevistada, a advogada Letícia Krueger...  “Curto usar na noite...”, podemos supor que ‘na noite’ tenha significado de ‘balada’, por aqui no Acre, e nas aldeias, a gente também usa ‘na noite’.

Enfim, a reportagem mais uma vez comete uma série de ‘pecados’ comuns ao meninos da Vila Madalena ao se referirem a contextos culturais amazônicos e brasileiros que não cabem nas suas pobres descrições colonizadas do mundo.

Não há muito mais o que se esperar da Folha de São Paulo. Seu diretor-presidente, Otávio Frias Filho, quando visitou a comunidade Céu do Mapiá do Santo Daime recorreu como ‘referência’ ao livro ‘O Coração das Trevas’ de Joseph Conrad, que mais tarde inspirou o filme ‘Apocalipse Now’ de Francis Ford Copola. Ou seja, Otávio Frias Filho, proprietário da Folha de São Paulo e provável inspirador de seus pupilos da ‘vila madá’ acreditava estar indo para um lugar semelhante ao Congo do tempo do rei Leopoldo ou ao Vietnã em guerra. Isso nos dá uma amostra de como esses rapazes estão despreparados para tratar de assuntos que estejam além do reino mágico situado entre as marginais pinheiro e tietê.

A conclusão possível é que o 'Rapé da Amazônia' não é capaz de trazer danos comparáveis à reportagem, veiculada sem qualquer compromisso com a verdade.   


quarta-feira, 26 de abril de 2017

As Raízes do Xamanismo Ayahuasqueiro Moderno

Imagem: "Essencial Love" por Anderson Debernardi
Artigo da Etnobotânica Gayle Higpine * 
Quando conheci a história pré-européia da região do Napo, comecei a entender algo que, no início, me fora estranho e perturbador, como um índio norte-americano: a abordagem do xamanismo como um negócio pelo qual as taxas são cobradas, E a competitividade e auto-engrandecimento dos xamãs. Na cultura indígena norte-americana, as pessoas de medicina são pessoas profundamente humildes que não consideram cobrar dinheiro, mas que, nos velhos tempos, seria cuidada por toda a comunidade. Mas a pré-conquista Napo era uma sociedade com muito intercâmbio entre grupos não relacionados. Ao contrário de uma verdadeira comunidade tribal, que é governada por obrigações de parentesco e em que os parentes são obrigados a cuidar uns dos outros, na sociedade multi-étnica e cosmopolita da bacia do rio Napo, as pessoas rotineiramente interagiram com estranhos a quem não tinham obrigações de parentesco, pelo que é necessária uma remuneração. De cima a baixo, os curandeiros foram chamados a fazer cerimônias para estranhos que não eram seus próprios parentes. De fato, há uma opinião entre os Runa de Napo que um xamã não pode fazer um bom trabalho de tratar seus próprios parentes, assim mesmo um O xamã procurará outro xamã, de preferência um não-parente, se sua própria família ficar doente.
Esse estilo de xamanismo tornou-se o estilo "clássico" do xamanismo ayahuasca. Não está enraizada em nenhuma cultura tribal específica, e pode ser transferida através de culturas de um indivíduo para outro. Na minha opinião, é por isso que esta forma de xamanismo Ayahuasca tem sobrevivido, e talvez até se espalhou e floresceu, enquanto famílias e comunidades de culturas tradicionais estavam sendo rasgadas. Esse estilo de xamanismo - que se concentra no praticante individual independente de laços de comunidade ou de parentesco, e que pode ser praticado com estranhos não-relacionados - foi facilmente assimilado na sociedade atomizada dos mestiços e se adapta facilmente à cultura ocidental de consumo. Na verdade, o contato com a sociedade consumista ocidental está fazendo com que esse estilo de xamanismo floresça.

O xamanismo ayahuasca mestiço de Iquitos é derivado principalmente de Napo. Ele extrai de outras raízes culturais indígenas, como o Kukama, mas mesmo aqueles já foram influenciados pelo estilo de Napo. No entanto, essa influência tem sido em uma única direção. A influência mestiça no xamanismo napo é quase inexistente. Na verdade, no Equador, o xamanismo mestiço é literalmente inédito. As circunstâncias históricas únicas que criaram o xamanismo mestiço Ayahuasca no Peru não existiam no Equador ou na Colômbia. Na Colômbia, porque muitos índios fugiram para as cidades devido à guerra civil, brancos e mestiços podem superar os participantes indígenas nas cerimônias Yagé, mas liderar as cerimônias é inteiramente do trabalho dos índios. No Equador, os mestiços não se interessam pela Ayahuasca. Os mestiços da Amazônia equatoriana são colonos recentemente chegados; Desde a década de 1960, a maioria deles chegou em estradas construídas para as empresas petrolíferas, encorajadas pelas promessas governamentais das "terras vazias" da Amazônia a qualquer pessoa que pudesse limpá-la e criar gado ou cana-de-açúcar. Ao contrário dos seringueiros mestiços no Peru há cem anos, os colonos mestiços da Amazônia equatoriana não precisam recorrer aos curandeiros indianos com suas crises de saúde. Eles não têm interesse na cultura indiana ou nos direitos indianos.

Missionários e Resistência

Gow (1996) sugere que o xamanismo Ayahuasca se originou em reduções missionárias, mas a evidência oferecida para isso é extremamente fraca, principalmente baseada no fato de que os espanhóis usaram quechua para administrar as reduções e na influência católica no xamanismo Ayahuasca no Peru Mestiço e indígenas. Não há influência católica discernível sobre o xamanismo ayahuasca no Equador. Creio que no Peru, os ayahuasqueros indígenas absorveram a influência católica não por causa dos missionários, mas porque testemunharam xamãs mestiços que misturavam o catolicismo com o xamanismo de maneira amigável. Os xamãs mestiços demonstraram que o catolicismo poderia acrescentar a uma prática xamânica, de fato, poderia fortalecer essa prática, com novas e poderosas entidades espirituais, sem renunciar às formas nativas.
No Equador, onde não há xamanismo mestiço, não há mistura de xamanismo Ayahuasca indígena e catolicismo. No Equador, os missionários e os xamãs são inimigos históricos. Gravando Napo Runa história oral, ouvi muitas histórias descrevendo os xamãs como os líderes subversivos de resistência secreta aos missionários espanhóis. Os missionários podiam impor o uso de roupas, chicoteando qualquer pessoa que encontrassem nua, e pudessem impor a freqüência à missa chicoteando qualquer pessoa que estivesse ausente da missa, mas eles não podiam monitorar o que as pessoas estavam fazendo no fundo da selva à noite. (Eu ouvi dicas de que, uma vez, nem todas as cerimônias de Ayahuasca foram feitas em completa escuridão como são hoje.)
A inconspicuidade é uma virtude tradicional para o Napo Runa, porque ser despercebido significa que não se está molestando o próximo. O bicho-preguiça representa o caráter humano ideal, em parte porque ele vive despercebido. Mas a capacidade de esconder também é um trunfo do Trickster, que para o Napo Runa é Coelho. Os Napo Runa são estereotipados no Equador como mansos e dóceis, em contraste com os ferozes Shuar e Waorani, mas sua própria auto-imagem enfatiza sua resistência e sobrevivência, e a Ayahuasca é creditada com um papel nisso. O chefe Jumandi supostamente usou a Ayahuasca antes de liderar a rebelião de 1578-9, e os Napo Runa creditam sua própria resistência aos xamãs pela expulsão dos missionários jesuítas do Equador em 1767, embora os livros de história dêem um relato diferente. 

Formas de Ayahuasca 

Conhecido como "xamanismo Ayahuasca" é apenas uma orientação para a prática Ayahuasca. Esta é a orientação que se concentra no xamã como um indivíduo, como uma espécie de profissional. Normalmente, o xamã será a única pessoa na cerimônia que bebe. Quando a população local veio para cerimônias de cura, o xamã encorajá-los a beber, mas geralmente eles não iriam. A maioria das pessoas considera a experiência desagradável. A cura é basicamente uma forma de adivinhação: Ayahuasca permite que o xamã para ver e trabalhar com o problema. Ayahuasca é uma ferramenta divinatória usada por indivíduos qualificados. Quando eu perguntei a pessoas que não eram membros da família de um xamã sobre sua experiência e uso de Ayahuasca, a maioria das pessoas disse que a experimentaram pelo menos uma vez. Qualquer curioso sobre Ayahuasca terá a oportunidade de satisfazer sua curiosidade mais cedo ou mais tarde, quando alguém em sua família, ou mesmo um vizinho, desenvolve uma doença para a qual um curandero será convocado. Ou sua família pode tentar sua própria sessão de cura Ayahuasca, muito na maneira que as pessoas da cidade podem tentar auto-tratamento para uma doença com remédios caseiros antes de ir a um médico. Qualquer pessoa presente em uma cerimônia é incentivada a participar da bebida, mas a maioria das pessoas me disse que, uma vez satisfeita sua curiosidade sobre Ayahuasca, eles não se importavam de repetir a experiência. Algumas pessoas nunca haviam experimentado a Ayahuasca, porque tinham ouvido que era tão desagradável. A Ayahuasca é uma presença sentida, mas a maioria das pessoas parecia satisfeita em deixar o dever desagradável de bebê-lo para os especialistas xamã. Há outro tipo de cerimônia de cura, da qual eu tive uma experiência muito breve e limitada perto de Tarapoto, no Peru. Nesta cerimônia, todo mundo bebe, e purgar através de vômitos é a intenção. Na verdade, o medicamento é até referido como La Purga, como foi a cerimônia. Em Napo, a purga não é enfatizada, porque é o beber do xamã que é importante, e ele presumivelmente fez todas as suas purgas durante o seu aprendizado. Portanto, geralmente não há muita purga nas cerimônias Napo Runa. (Eu não tive meu primeiro purge até que eu tinha bebido por mais de um ano.) A maioria de quem veio para cerimónias em Napo declinou o convite para beber porque consideraram o Ayahuasca desagradável. Os participantes na cerimônia purga, pelo contrário, consideraram-no altamente prazeroso. As pessoas queriam beber, esperavam beber e esperavam purgar. A purga está longe de ser automática com a Ayahuasca, mas o corpo pode ser treinado para responder com segurança à Ayahuasca com uma purga. Uma purga de Ayahuasca pode ser poderosa e extática, limpa e cura, por isso não foi surpreendente saber que algumas pessoas olhavam para a frente a uma purga semanal. Acredito que este estilo de cerimônia, bem como o estilo Napo, influencia a cultura mesaiense Ayahuasca de Iquitos. Há também cerimônias de laços grupais. Siskind (1973) descreve o consumo comunal de Ayahuasca entre os Sharanahua (geralmente em todos os grupos masculinos, mas eles não a desencorajam de participar) eo xamanismo individualista de Ayahuasca também. Os tucanoanos na Colômbia têm danças cerimoniais com Yajé. O uso da Ayahuasca para habilidades de caça e visões de jogo é generalizado e aparentemente antigo. Miller-Weisberger (2000) descreve uma prática única entre os Waorani de melhorar as habilidades de caça com Banisteriopsis e um "jejum" de dois anos. Estas formas variadas de prática de Ayahuasca, e mais, são centradas na videira. O Napo Runa considera a videira a fonte de toda a sabedoria. Na cerimônia de purga, se a cerveja continha alguma folha, era apenas discernível. Para o Sharanahua, a mistura é de importância secundária.22 Os Tukano usam a videira sozinhos; Assim como os waorani.23 Um ancião Waorani, Mengahue, diz sobre o poder da videira: Miiyabu é uma planta atrativadora e seu espírito é muito forte. Muitas pessoas não são fortes o suficiente ou sábio o suficiente para usá-lo em benefício do povo ... É por isso que sempre que você tocar esta planta você deve estar ciente do que você está pensando, porque tudo o que você está pensando é o que você vai atrair para a sua vida quando Você toca nessa planta. (Miller-Weisberger 2000: 44)

Antiguidade da Ayahuasca 

"Durante os Tempos Antigos, o conhecimento pleno dos espíritos de huandu e ayahuasca existia" (Whitten 1972: 47). "Afirmamos que ayahuasca é nossa planta sagrada ... Ela sempre foi guardada por Nossos avós e ancestrais "(Yajé é cultivado a partir de estacas e, portanto, é pensado para ser uma videira contínua que remonta ao início dos tempos ... yajé em si é comparado a um cordão umbilical que liga seres humanos ... para o Passado mítico "(Hugh-Jones, citado em Schultes e Raffauf, 1992: 24). Os Runa no Equador dizem que sua relação com Ayahuasca vai para o início dos tempos. A antiga presença de Bisteristeriopsis caapi, também conhecido como Ayahuasca, em toda a Amazônia superior é atestada pelas práticas difundidas e variadas em torno dele e as classificações finas de subvariedades de videira. Acredito que estudos genéticos poderiam ajudar a confirmar a antiguidade de seu uso. Se, como com praticamente todas as plantas de uso humano generalizado na Amazônia, o B. caapi foi propagado por seres humanos a partir de um único local de origem, então o grau de diferença genética entre as plantas em um local e outro daria pistas sobre quanto tempo Eles estavam separados. Embora Banisteriopsis caapi seja propagado por clonagem, até plantas clonadas mostram mudanças genéticas ao longo do tempo. A genética também pode dar uma visão das variedades reconhecidas pelos povos indígenas.

Conclusões

 "Banisteriopsis pode muito bem ser antigo ... [mas] parece que a ayahuasca como a conhecemos não é tão antiga" (Brabec de Mori 2011: 26). Os historiadores da Ayahuasca fariam bem em olhar além da "ayahuasca como a conhecemos" e reexaminar o papel psicoativo de B. caapi, como tem sido bem documentado ao longo da literatura. Minhas conclusões são: A forma mainstream do xamanismo Ayahuasca originado no rio Napo , Originou-se como uma prática só de videira; As misturas foram descobertas devido à prática de misturar outros medicamentos vegetais com B. caapi; E a história da Ayahuasca de uso por seres humanos é muito mais antiga do que a cerveja. 

Artigo Original: Unraveling the Mystery of the Origin of Ayahuasca

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lembrete para esse dia 19 de Abril e para todos os outros: descolonizar-me

descolonização
substantivo feminino
  1. 1.
    ato, processo ou efeito de descolonizar, retirando a característica de colônia a.
  2. 2.
    aquisição gradual de independência política, econômica e cultural por parte de antigas colônias.

Detalhe do mural de Cuzco que retrata a colonização da América Andina.Pintor: Juan Bravo
E se de repente, nesse dia 19 de abril, ao invés de fazer as costumeiras homenagens ao indígenas que tanto admiro em meu país e continente, eu resolvesse olhar para mim mesmo, de modo crítico, franco e sincero?

Pois para mim está bastante claro que há muito mais em mim de Aguirre e Anhanguera do que de Atahualpa e de Sepé.

Aproveito a calmaria dessa crise econômica que paralisa a todos, e quanto mais a nós, nessa ponta de mundo que é o Acre para navegar nas páginas de livros que tratam, sob diferentes aspectos, da colonização-ocupação da Amazônia.

Um deles trata-se de ‘Árvore de Rios’ de John Hemming. Folheando seus meandros, vou me reconhecendo. Não nos indígenas ora hospitaleiros, ora arredios, ora valentes e determinados, ora desesperados suicidas, ora dizimados.
Coube aos índios cuja pecha de preguiçosos perdura até hoje, praticamente todo o trabalho braçal empregado no empreendimento colonial.  

Reconheço-me sobretudo na façanha aventureira dos primeiros exploradores, no cristianismo utópico dos jesuítas, na ganância cobiçosa dos colonos.

É que mesmo hoje, século XXI, os paradigmas que conduziram o projeto colonial nas Américas, permanece vivo e atuante. E quando digo tal coisa, não estou excluindo nem a mim mesmo e nem a todos aqueles que com boa vontade muitas vezes abraçam, de variados modos, a causa indígena.

Para quantos de nós esse índio não foi idealizado na figura de um ser-espiritual superior? De outro modo quem irá nos salvar de nosso desencanto? 

Confesso. Eu também. E quando o índio não se encaixa em nossas expectativas de branco sobre o que é ser índio, é porque não é ‘índio o bastante’, ou ‘não é mais índio’, ou ainda ‘não é índio de verdade’. Talvez esse seja afinal o golpe de misericórdia: povos que foram escravizados, evangelizados, ‘aculturados’ ao bel prazer do projeto colonial vigente, ainda podem ter sua identidade definida pelo olhar do outro.

Biraci Jr: Apenas um susto e histórias para contar
Um caso dessa semana chamou a atenção. Biraci Jr, filho do cacique Biraci Brasil do povo yawanawá, juntamente com outros dois companheiros, durante uma caçada, perderam-se por três dias na mata. Não faltou gente a comentar o fato, aparentemente inusitado de que um índio pudesse se perder na mata. Para o senso comum do acreano, índio e mata seriam praticamente uma coisa só. Até aí tudo bem, o problema começa a transparecer quando um apresentador de TV, do alto de sua mais alta ignorância sobre o tema, promove seu preconceito e desinformação ao grau de verdade televisionada. Já apresentei TV e sei que isso acontece, muitas vezes sem maiores intenções de prejudicar, por pura vontade fazer ‘show’. Só que não dá para deixar passar batido. E cumpre o papel de dizer que sim, índio se perde na mata. São fartas as narrativas sobre isso. A novidade, nesse caso específico, é que a velocidade dos meios de comunicação transformou em notícia algo que, em outras circunstâncias, ficaria restrito à aldeia para ser contado ao pé da fogueira, quem sabe em uma rodada de rapé.

Do mesmo modo, posso contar de minhas inúmeras decepções ao idealizar o índio como ‘ser espiritual’, e depois vê-lo, por exemplo, xingando a mãe do adversário em uma partida de futebol, ou tomando umas no bebôdromo da cidade, jogando baralho, comendo linguiça ou apostando dinheiro na roleta do Cassino.

É quando meu alter ego jesuíta diz: ‘Malditos índios que não são o que eu idealizei! Desse jeito vou ser obrigado a olhar para mim mesmo’.

Sete anos atrás, no terreiro sagrado do povo yawanawá, o Muká me deu um Sonho.

Nele, um ser meio homem-meio máquina super-poderoso armado até os dentes com as mais avançadas tecnologias dominava o espaço sideral com uma potente nave.

O ser, que entre outras coisas, tinha domínio sobre a vida e a morte de seus súditos e sobre a estreita passagem entre o céu a terra, terminava por desmontar-se numa infinidade de minúsculas peças, revelando ao fim, seu caráter binário de zero ou um.

Compreendi o recado e desde então tenho aceitado, voluntariosamente a tarefa de ‘desmonte’ de meus padrões de comportamento e de pensamento, que trazem sobretudo, o DNA dos colonizadores desta terra.

Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera
Lembro-me agora da ironia de um velho amigo paulista, ao passar no 'Monumento às Bandeiras': -“E lá vão os bandeirantes, estes bravos desbravadores”,  “-Opa, mas se eles são bravos desbravadores, porque não desbravam a si mesmos”.


A frase tem ecoado em meu, como um desafio para aventurar-me pelas minhas próprias entranhas, e descobrir em cada curva, um pouco daquele tirano tão bem traduzido no sonho do Muká.  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um relato de caça e trabalho entre os Yawanawá

Infelizmente, o preconceito sobre a relação dos povos indígenas com o trabalho, continua se perpetuando, por meio da desinformação e de gente mal intencionada, que somente consegue ver o outro como mercadoria a ser explorada.  

Neste Abril Indígena, quero dar essa singela contribuição para dirimir esse preconceito, publicando um trecho de meu livro Muká, a Raiz dos Sonhos que relata um período de intenso trabalho em que convivi com o povo Yawanawá, no Alto Rio Gregório.

Junto com Nixiwaká e seu grupo de caçadores, subimos o rio Gregório até o Caxinauá.

Lá está o acampamento de caça, a aldeia e o terreiro sagrado dos ancestrais.

Durante a subida, chamou-me a atenção o alto grau de organização dos yawanawá em suas tarefas. Numa operacionalidade impressionante as funções são rapidamente preenchidas por cada pessoa. 

Enquanto um grupo subia o rio de barco, um grupo menor ia por terra, colhendo frutos e obtendo informações sobre o rastro de animais que poderiam ser, posteriormente, caçados.
Cinco ou seis taperas feitas de paxiúba e cobertas de palha de cocão formavam o acampamento de caça. Os yawanawá mostravam-se bastante à vontade naquelas habitações precárias. Não havia paredes. As taperas eram apenas uma pequena área coberta de palha, elevada do solo por palafitas. O assoalho de paxiubão recebia apenas um ou outro prego ou então era amarrado com cipós.

Durante o dia as infestações de piuns tornavam qualquer passeio pela praia do rio praticamente insuportável. Só na floresta densa havia algum refúgio para os terríveis piuns. Depois do almoço, ao meio dia, éramos obrigados a nos cobrir com lençóis mesmo diante de todo calor.

Mas havia fartura de alimento. Carne de paca, queixada, macaco ou jacaré, ou às vezes, peixes do rio chegavam ao acampamento a todo o momento.  

Acompanhei uma destas caçadas noturnas. Dois grupos se dividiram. Um grupo de caçadores foi para a floresta, enquanto, um grupo menor subiu o rio Gregório. Nixiwaká achou mais prudente que eu acompanhasse o grupo do rio.
Nixiwaká ia à frente com uma lanterna, enquanto um jovem yawanawá, apelidado de ‘Abdão’ varejava lentamente o bote rio acima. Obviamente não se usa motor, para não afugentar a caça. No lugar disso, usava-se um ‘varejão’ - pau cumprido com a qual o piloto toca o fundo do rio e literalmente ‘empurra’ a canoa de maneira semelhante às gôndolas de Veneza.

A princípio acreditei que subiríamos o rio para dar início à caçada a partir de certo ponto em terra firme, mas o fato é que a caçada já havia começado desde quando saímos do porto.

O objetivo era com a lanterna, avistar os olhos de algum animal noturno, em especial as pacas que vêem às praias e barrancos e ficam ‘encandeadas’ com o brilho da lanterna, ‘se esquecendo’ de fugir. Na foz de um pequeno igarapé que despejava suas águas no Gregório, Nixiwaká focou sua lanterna sobre um balseiro de paus e folhas, fazendo refletir a luz nos olhos de um jacaré.
Fazendo o mínimo de barulho possível, ‘Abdão’ aproximou a canoa do barranco. Ele e Nixiwaká não trocaram um apalavra, mas adivinhavam as intenções um do outro. Sem tirar o foco da lanterna dos olhos do jacaré, Nixiwaká mirou sua espingarda e disparou.

Abdão arrastou o animal para dentro da canoa, ainda com vida, conforme iriam comprovar seus roncos guturais durante o restante da noite.

Seguimos rio acima com o novo passageiro. À noite era possível apreciar a natureza sem ter que se esconder dos piuns. Paramos nossa canoa em uma bela praia de areia branca. O céu estava completamente estrelado naquela madrugada. Tomamos um rapé naquele lugar.

A madrugada já ia longe e todos, sem exceção estavam bastante cansados.

Durante a decida, já próximos ao acampamento, encontramos mais uma paca. Estava em um barranco baixo. Desta vez o tiro foi certeiro e Nixiwaká acertou já no primeiro disparo. O “quebra-jejum”do dia seguinte estava garantido.

Os caçadores do grupo que entrara na mata trouxera dois tipos de macaco. Os ‘Isu’- macacos-preto e os ‘Ru’- capelões ou guaribas.

Meninas com mais de dez anos ajudavam na faina de ‘tratar’ (limpar) os animais. Um trabalho que certamente traria horror a uma menina de família de classe média era feita sem nenhum problema por estas pequenas. Vi macacos inteiros serem mergulhados na água quente para lhe retirar os pêlos do corpo, e com a mesma destreza suas mães manejavam as afiadas facas de cozinha para retirar os ‘fatos’ (tripas) dos animais.

Enquanto as mulheres ‘tratavam’ os peixes e animais, os homens, exaustos da caçada noturna, ou iam dormir, ou iam antes retirar os carrapatos acumulados durante a noite na floresta.
Pela noite o jantar era servido pelas mulheres e havia uma grande animação.

Os homens não mexiam nas panelas. Não vi nenhum homem sequer olhar dentro da panela. Isto pareceria falta de educação ou grosseria. Somente as mulheres dos chefes de família eram quem serviam o alimento. Entre eles havia também o mesmo costume do seringal de servir antes o caldo, para que somente depois de acrescida a farinha e feito o pirão fosse servido o ‘nami’ (carne) ou peixe.

Estas mulheres faziam todos os dias o milagre da multiplicação. Talvez se deixassem para que cada um se servisse conforme o seu apetite é certo que alguns ficariam sem comer. Elas exerciam com maestria o seu papel de matriarcas que cuidam do grupo todo. Em sua perfeita matemática faziam com que todos ficassem satisfeitos. Jamais passei fome em nenhum momento, tampouco senti aquela desconfortável sensação comum e desprezível que se tem quando se sai de um restaurante ou uma churrascaria de se estar ‘empachado’ (empanturrado).

Havia também um delicioso suco que era preparado com uma fruta da mata conhecido na região como abiorana.

Algo que me impressionava entre os yawanawá era a sua capacidade de se adaptar ao chamado “mundo do branco”. Itens produzidos por nossa sociedade são por eles utilizados com grande habilidade, maior até, diria do que muitas vezes os brancos que os produzem.
Facas, terçados e machados, por exemplo, haviam tornado-se itens indispensáveis ao seu modo de vida. Seus instrumentos são amolados diariamente, utilizando para isso, limas e esmeris. Com madeira e couro de animais produzem bainhas e cabos para eles.

O fascínio, a admiração e o reconhecimento da utilidade destes objetos em suas vidas faz com que às vezes eles denominem o homem branco como sendo os “Ruwe Nawá” – cuja tradução aproximada seria ‘povo da pedra colorida’ - uma alusão aos metais que em contato com o fogo mudam de cor e emitem o brilho da fundição. Um exemplo foi o de uma faca que fora dada de presente que após algum tempo de uso teve o seu cabo quebrado. Seu dono, um caçador yawanawá, produziu a partir de madeira e restos de sandálias velhas, um cabo tão eficiente e ergonômico quanto o original.

As espingardas recebem um tratamento especial como se fossem ‘animais de estimação’ ou quase ‘membros da família’. Elas são carinhosamente lubrificadas com óleo todos os dias. Algumas ganham adaptações feitas de madeira, para torná-las mais anatômicas, ou então pinturas de kenês (desenhos tradicionais) em preto e vermelho, lembrando as cores do jenipapo e do urucum.
Cada caçador possui um instrumental que é mantido em uma pequena sacola plástica a fim de poupá-los da chuva e da forte umidade amazônica. O material consiste em cartuchos vazios, pólvora, chumbo e espoletas, bem como um pequeno molde em madeira feito por eles mesmos que servem tanto para socar a pólvora nos cartuchos, quanto para moldar o chumbo, quando estes querem um projétil maior, destinado ao abate de caças grandes como queixadas e antas.

A pólvora é socada dentro dos cartuchos juntamente com a raspa de determinadas madeiras, que servem para dar pressão à pólvora e ajudar na explosão.
Não há o mínimo desperdício de nenhum material, principalmente por conta da escassez. Das caçadas em que presenciei a sua preparação, vi que cada caçador não partia com mais do que meia-dúzia de cartuchos cada um. Por esta razão sua pontaria tinha de ser boa e um tiro perdido, sempre era motivo para uma breve lamentação. Pelas mesmas razões, por maior que seja a abundância de animais, a caça é limitada pela escassez de munição.

Todos homens são em algum momento, caçadores, pescadores e eventualmente, coletores (principalmente de açaí, bacaba, patoá e buriti).

A caça é dividida entre os grupos familiares, seguindo a critérios culturais de parentesco e afinidade, o que faz com que a retribuição mantenha as famílias sempre abastecidas, sem que seja necessário o caçador se ausentar todos os dias de sua casa.

Quando acampados em grande número, a caça ganha um caráter de atividade coletiva, ainda que nos momentos chaves, o ato de abater o animal seja de fato, individualizado, ganhando por assim dizer, uma ‘autoria’ que mais tarde será festejada nas narrativas do acampamento.

Caças menores, como aves e pequenos roedores, são denominados embiaras e em ocasiões como esta são sistematicamente desprezadas, pois seu abate significa gasto de munição para uma caça que vai alimentar apenas poucas pessoas. A busca voltava-se para as caças maiores seguindo exatamente esta ordem: anta, veado, queixada, catitu, pacas e macacos em geral.

Barcos e motores também já haviam sido totalmente incorporados ao modo de vida dos yawanawá. Entre eles há exímios pilotos, hábeis em manejar canoas com ‘motor de rabeta’ entre obstáculos proporcionados por paus e balseiros no raso rio Gregório.

O uso intenso de botes e motores sob condições adversas causa um desgaste excessivo e constantes danos nos componentes dos motores. No entanto, os yawanawá provavam ser capazes de promover os consertos necessários, com o mínimo de ferramentas e materiais, prolongando a vida útil dos equipamentos e diminuindo a dependência externa para estes reparos.

A raiz destas adaptações dos yawanawá a um novo modo de vida que dialoga com as tradições é sempre apontada na direção de uma figura histórica quase lendária: Iva Istihu.
Ao seu comando, os yawanawá tornaram-se indispensáveis para a manutenção do Seringal, provendo inicialmente desde caçadores e mateiros, para posteriormente converterem-se em produtores de milho, banana, macaxeira, mel de cana e animais de criação como galinhas, patos, porcos, carneiros e bois.

Rayá

A caça não era, contudo, a única atividade desenvolvida naqueles dias pelo grupo de vanguarda yawanawá. Havia muito trabalho, afinal de contas, pois objetiva-se construção de pequenas casas de paxiúba para a formação espiritual no terreiro do muká e um alojamento para os professores, no alto do barranco.

- Rayá. É como a gente chama trabalho na nossa língua. Engloba uma série de atividades, mas não a caça e a pesca por exemplo. Isso que agente esta fazendo é rayá waki- trabalhar. Desde o plantio e a colheita de mandioca, à construção de casas, ou o artesanato de cocares, brincos, pulseiras e colares, tudo é rayá. Também é rayá o trabalho dos professores, agentes de saúde, e o seu. Tudo é rayá, exceto caça e pesca. Assim explicava-me Nixiwaká.

Um grupo, dos homens mais fortes e mais acostumados aos trabalhos pesados, empenhou-se em localizar, derrubar e trazer as toras de Utxá (paxiúbinha) e Tau (paxiubão) até o Caxinauá. Um grupo maior envolveu-se em uma atividade que embora aparentemente mais leve, exigia ainda mais trabalho: retirar as palhas de jarina para a cobertura das casas. Entramos na sombra refrescante da floresta em busca das jarinas. Com meia hora de caminhada chegamos a um verdadeiro ‘jarinal’. Por uma extensão de uns cem metros quadrados, as jarinas eram a planta que dominava o local, embora houvesse outras espécies de árvores, elas eram incontestavelmente a presença mais importante.

Epe – é como os yawanawá denominam a jarina. A palheira tem grande importância em toda região desde muito antes da chegada do homem branco. Sua palha pode ser usada para a cobertura de casas. 

Os yawanawá e outros povos também usam a fumaça de sua palha queimada, para curar determinados tipos de coceiras

Para este rayá, os yawanáwa não levavam água. A própria jarina que fornece as palhas, dá também um pequeno coco, cujo conteúdo é uma saborosa água adocicada. Os cocos um pouco mais maduros apresentam em seu interior uma geleia saborosa. Quando completamente maduros, o interior do coco torna-se rígido e é comparado ao marfim, podendo ser utilizado para artesanato.

Passamos parte da manhã cortando as palhas de jarina e as arrumando no local, para à tarde, transportá-las. Uma envira atava as palhas em feixe e cada qual levava de cem a duzentas unidades. 

Não me pareceu nada fácil carregar aquela ruma de palhas nas costas pela floresta. Fizemos mais cerca de três a quatro viagens cada um, o que deve tornar próximo de quatro mil palhas transportadas naquele dia. Ao final da tarde fomos ‘virar’ as palhas, que consiste em quebrar cada rama de um lado da palha e invertê-la para o outro lado, tornando-se assim, uma ‘telha’ para a cobertura.

Era muito trabalho de fato, mas a maneira como era desenvolvida, não o tornava estafante. Tudo era executado como uma grande brincadeira, com cada pessoa disputando com a outra quem levava mais, quem era mais rápido, quem fazia melhor. Uma disputa saudável e alegre que tornava o trabalho mais leve.

Não havia nem de longe o menor resquício da proverbial “preguiça” naquelas atividades, tampouco havia a pressa em apresentar resultados ou a pressão de um ‘patrão’, ‘gerente’ ou ‘capataz’, mas tudo transcorria dentro de uma ordem e harmonia.

Pensei que talvez nossa sociedade devesse a aprender com os índios, como trabalhar, sem tornar nossa vida, uma escravidão.

No dia seguinte começaram a chegar toras de paxiubinha e de paxiubão que haviam sido transportadas pelo rio. Com grandes machados, os yawanawá mais fortes, rachavam as toras no meio e com um enxadeco retiravam de dentro a polpa esponjosa, cujo odor, semelhante ao de melancia, logo atraia centenas de besouros e fazia os bois a atravessarem o rio para comê-la.

Depois de ‘esvaziadas’, as toras eram então quebradas e achatadas com marretas, transformando-se em rústicas táboas. O paxiubão, mais pesado e resistente destina-se ao chão, enquanto a paxiubinha, mais leve, era destinada às paredes.

Mais um dia de rayá teve início quando Zé Domigo, um dos filhos mais velhos de Yawá, começou a montar a casa. Sua técnica não era muito diferente dos carpinteiros brancos, embora utilizasse menos pregos e mais cipós e enviras nas amarrações.

Os barrotes de madeira nobre foram assentados formando o alicerce da pequena casa.
Sobre eles foram encaixadas e pregadas peças que dariam sustentação ao assoalho de paxiubão. Feito isso, sobem as linhas que começam a dar estrutura à casa. Acrescidas as paredes de paxiubinha, por último é feita a cobertura, trabalho que exigiu a participação de todos, entregando as palhas de jarina para seis trabalhadores que iam colocando e amarrando as palhas até elas formarem o telhado da casa.

Toda esta etapa de trabalho consumira dez dias.

Durante o dia, os trabalhadores extraiam da mata o material, o ‘beneficiavam’, construíam a casa. À noite e pela madrugada estes mesmos trabalhadores convertiam-se em caçadores e pescadores para garantir a sua alimentação e a de seus familiares.

Assim foi a vida destes “preguiçosos” durante os dias em que vivi entre eles.

*Dedico este texto ao trabalhador yawanawá Zé Domingo.

** Este excerto faz parte do livro:

Muká, a Raiz dos Sonhos. Autor: Leandro Altheman Lopes.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sob a bandeira de Israel, Messias comete crime de racismo

É difícil tratar determinados assuntos quando a pessoa em questão aproveita-se sobretudo da indignação de setores da sociedade para alavancar seu nome.
Sem propostas concretas, sem conhecimento de macro-economia, com uma atuação pífia no congresso, o marketing do ‘Messias’ vive de causar polêmica a partir de suas declarações quase sempre, racistas, machistas e homofóbicas, que acabam por agradar, obviamente, outros setores. E lá vai ele, já na casa dos 10% de intenções de voto, o nosso ‘sargentão sem compostura’ desfilar seus preconceitos de caserna, desta vez agora, sob a ‘proteção’ da bandeira de Israel.

Muita gente questionou como poderiam os judeus, um povo historicamente, massacrado, oprimido e perseguido, fazer um convite a um palestrante, sabidamente racista. Sim, porque o convite partiu da própria Hebraica.

Há ainda ate quem alegue a proximidade de Messias com Israel, uma 'prova' de que o mesmo não seria 'nazista'. Errado. O nazismo do século XXI não tem a cara de Hitler, mas de Netanyahu. A bandeira carrega não a suástica, mas a Estrela de Davi. O 'Espaço Vital', que  Hitler justificou para atacar a Europa Oriental, hoje justificam a criação de colônias de judeus nos territórios ocupados da Palestina. A 'superioridade ariana' deu a vez para 'o povo escolhido'.

Messias é apenas mais uma voz do nazi-sionismo. Afirmar tais coisas não é anti-semitismo, assim como condenar o nazismo, não é condenar o povo alemão.

Em que pese as manifestações de repúdio de muitos judeus (em São Paulo, o repúdio foi suficiente para que o convite fosse cancelado, mas não no RJ), Messias, como aliás, boa parte dos evangélicos neopentecostais, acreditam piamente fazer parte do 'povo escolhido' e por esta razão estão totalmente alinhado com o pensamento nazi-sionista que determina a política de estado em Israel. Inclusive no que diz respeito à política militarizada de segurança e uso e venda de armamentos.
O mesmo esteve lá para ser batizado ‘nas águas do Jordão’. Há um alinhamento perfeito entre a ideologia de uma parte significativa do segmento evangélico brasileiro, com o ideário (nazi)sionista. Se puxar pelo fio da meada, todos se encontram na concepção de um deus etnocêntrico, que abençoa ‘escolhidos’ enquanto justifica atrocidades contra os ‘incircuncisos’. Da mesma cepa parte a concepção do ‘destino manifesto’ com que os EUA justificaram o massacre e extermínio dos povos indígenas.

No cerne disso tudo está a não-aceitação do outro, resquício de um pensamento de quando a ideia de um deus-protetor de um povo, passou a ser adotado como universal.
Claro que há outras concepções possíveis, seja no judaísmo ou no cristianismo. Poderia discorrer sobre o papel de Salomão me realizar a paz com os povos vizinhos e aceitar suas próprias visões de mundo (e de como isso foi posteriormente condenado pelos patriarcas). Ou mais ainda, da visão do Cristo, que em mais de um momento em sua vida, universaliza a benção para além da ideia de um ‘povo escolhido’.

Mas o fato e que essa ideia está profundamente enraizada no pensamento de gente como Messias e vira e mexe, vem à tona. É a negação do outro, tão bem explicitada na frase proferida na Hebraica.

"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais.”

Contudo, mais importante do que discutir teologia, talvez fosse simplesmente aplicar a lei. Messias cometeu crime de racismo contra um segmento da população brasileira e deveria responder por isso. Se o crime foi sob a bandeira de Israel, é só mais um detalhe. Um detalhe revelador, diga-se. Mas ainda assim, um detalhe.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não é ‘nacionalismo’ defender setores que nos mantém na condição de colônia

Fato curioso tem sido o ‘súbito nacionalismo’ que tomou de assalto setores da esquerda brasileira. Não foram poucos os que partiram em defesa do “ogronegócio” após a operação da PF + MPF + JF, com o argumento de que a operação traria prejuízos ao setor.

Bem, a verdade é que trará mesmo, e que bom. Assim talvez falte dinheiro para financiar o desmatamento da Amazônia e o Genocídio Indígena. Ainda que isso possa ser compensado sempre, com trabalho escravo no campo ou mais carne estragada (e maquiada) na mesa. 
Engana-se quem pensa que esses senhores percam alguma coisa. O consumidor está aí para isso: absorver os prejuízos.

O que parece chocante, ainda que nem tanto, é que setores da esquerda, especialmente do PT e do PCdoB têm assumido a defesa do ‘ogronegócio’ como parte de um estratégia de defesa da economia nacional em um cenário globalizado. E aí começam nossas diferenças.
O sistema agro-exportador brasileiro, cantado em verso e prosa em uníssono pela grande imprensa nacional (e também  por setores da esquerda) nada mais é que a continuidade da relação de colônia iniciada no Brasil desde o ciclo da cana. É ‘Plantation’ – Monocultural, 
Escravocrata e Exportador.

Tenho dito que a defesa de setores que nos mantém na condição de colônia não é ‘nacionalismo’ de verdade. Isso porque o ‘plantation’ agroexportador não é e nem nunca foi, um projeto de nação. É apenas um projeto de colônia, defendido com unhas e dentes, por quem deveria almejar a sua superação.

Ouso dizer que se quisermos de fato um dia, nos tornarmos uma nação, digna desse nome, teremos de olhar para além de um projeto engendrado pela coroa portuguesa. Teremos que olhar primeiro para as nações que já existiam antes nessa terra, e que sobrevivem após reiterados apocalipses. Se ‘nosso’ projeto de nação não inclui também ‘eles’,  já nasce aleijado.

A Imprensa Subserviente e a política travestida de anti-política

Dizer isso não equivale a tecer louvores à operação da PF (+MPF + JF). Trata-se de mais uma operação midiática, que tem por objetivo ‘manter a opinião pública em estado de permanente exasperação e mobilização rancorosa’, para tomar palavras emprestadas de Reinaldo Azevedo.

Aliás, não custa perguntar: se a PF tinha conhecimento das denúncias há sete anos atrás, porque não tomou atitude antes? O que ficou fazendo esse tempo? Enchendo linguiça?

Nunca imaginei que viveria um dia para concordar com Reinaldo Azevedo. Mas em seu mais recente artigo, o colunista apenas confirma antigas suspeitas:
  • Setores do Judiciário, MPF e PF, a pretexto de 'punir a política 'corrupta' do país', não fazem outra coisa senão POLÍTICA. Ou seja fazem política travestida de anti-política.
  • Ao contrário do que transparece ao senso comum, o esquema de delações premiadas promove na verdade, a IMPUNIDADE que diz combater, afinal, qual é o que da delação se não a impunidade do delator?
  • Setores da imprensa tem agido de forma SUBORDINADA a estes órgãos - aquilo que em meus textos tenho chamado de 'agir como assessoria de imprensa de PF, MPF e JF'
Azevedo toma essa posição em defesa de seus próprios interesses, agora tão claramente contra os órgãos que antes louvava quando voltavam-se contra seus adversários, é justamente porque tem amigos e aliados no setor hora ameaçado.

A PF (+MPF + JF) deseja ardentemente que a sociedade se coloque sob sua égide protetora, e a imprensa parece aplaudir o protagonismo que é incapaz de exercer.

Mas, passada a ‘febre’, a mesma grande imprensa que com facilidade se curvou à narrativa da PF, agora curva-se aos seus maiores anunciantes: o ‘ogronegócio’.

Questionar a atuação desses órgãos cada vez mais ‘fora da casinha’, é facilmente confundido com ‘defesa do orgronegócio’. Pode ser para muitos, mas para outros tantos trata-se do necessário resguardo de quem não deseja criar os corvos do autoritarismo.

Fosse uma partida de futebol com um time representado pela PF e outro pelo ‘Ogronegócio’, o melhor resultado possível seria que ambos quebrassem as pernas.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ninguém Liga ...

... para os animais que morrem atropelados na BR 364 

Meu fim de semana foi marcado por um incrível vai e vem entre Cruzeiro do Sul e o Rio Cigana, onde o afundamento da cabeceira da ponte, causou uma interdição temporária na BR 364. Foram umas oitos viagens ao todo. Não reclamo, até gosto, principalmente por passar por aquele trecho incrivelmente bonito coberto de mata nativa entre o rio Juruá que se estende até o Croa e termina pelo Lagoinha. A parte triste é se deparar com animais silvestres mortos na pista por atropelamento.

Em geral são as cobras, especialmente jiboias e sucuris, que são atropeladas naquela área, na maioria das vezes, propositalmente por motoristas que acham ‘estar fazendo um bem’, ao tirar a vida de uma cobra.

Sempre há também as mucuras. Mas quem se importa com aquele bicho feio e fedido, ladrão de galinhas? O marsupial que é considerado um fóssil vivo dos primeiros mamíferos pode ter sobrevivido ao meteoro que dizimou os dinossauros. Mas será páreo para as rodas? Também já vi mambiras (um tipo de tamanduá, para quem não conhece) e bichos preguiça, para citar outros mamíferos. Em tempos de alagação, jacarés cruzam a pista em busca de abrigo e muitas vezes acabam esmagados pelas rodas de carros e caminhões oferecendo um triste espetáculo para quem passa em seguida.

Se as pessoas não param sequer para gatos e cachorros, animais com que a raça humana compartilha experiências há milênios, o que se dirá cobras, lagartos, mucuras e preguiças?
Mas com tanta coisa para se preocupar, como as mercadorias que poderiam estragar na estrada, causando alta dos preços, porque esse jornalista(zinho, segundo alguns), vai se preocupar logo com os bichos.

O problema é que minha empatia não se encerra na humanidade. É claro que as agruras dos humanos me comovem. Mas os bichos também contam com a minha empatia. Deve ser porque sou de Oxóssi que sinto o pulsar do coração de um enorme lagarto jacaré que agoniza na estrada. Inteiro ele deve ter algo perto de um metro e meio, mas sua cauda está separada do corpo. E ainda se mexe. Não deixo de me admirar da beleza de suas cores que vão do verde ao vermelho em escamas que fazem lembrar os lendários dragões. Sua cabeça triangular traz uma boca larga. Parece até esboçar um sorriso que me leva a entender o que João Ubaldo Ribeiro quis dizer com ‘O Sorriso do Lagarto’.   

Vão passar décadas falando sobre a BR, sua trafegabilidade e sua importância, recursos investidos, aplicados e segundo alguns, desviados. Vão falar sobre a dificuldade de fazer uma rodovia em solo amazônico, das chuvas que não deixam as máquinas trabalharem, dos rios e igarapés que transbordam e acabam com a pista, da necessidade de se importar pedra e que a mesma pedra trazida para fazê-la, ajuda a destruir o que já foi feito. Vão falar sobre substiuí-la por uma ferrovia e apontar dedos um na direção do outro sobre porque ela está do jeito que está.

Mas os bichos não falam e então eu falo por eles. Falo que a rodovia foi embargada porque passa em uma região amazônica de alta biodiversidade, e que foi liberada mediante o compromisso de que haveriam passagens para os bichos, mas as passagens não foram feitas porque custariam caro, mas a rodovia custou caro mesmo assim. E mesmo assim, quem liga?

Já que não posso salvá-lo, decido que vou ao menos retirar seu corpo da pista. Colocá-lo na terra. Da terra à terra. Não quero ver aquela beleza esmagada continuamente pelas rodas dos carros e caminhões. Quisera eu poder retirar todos os bichos da estrada. Quisera eu que nenhum sequer morresse assim.   

Levo alguns minutos observando aquelas escamas perfeitas que parecem ter saído de um filme de ficção, mas obra nenhuma feita pela mão do homem terá a perfeição das escamas do rei lagarto.

...

Vestindo a roupa de gente de novo, digo: já que a rodovia será reconstruída que tal fazer as passagens para os bichos agora? Já que Cruzeiro do Sul almeja tornar-se polo turístico, tais passagens ajudarão a preservar o valor biológico de nossa região. Quanto dinheiro um gringo estaria disposto a pagar para ter uma fotografia como daquele lagarto morto na estrada.  

*Fotos retiradas da internet. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Morre Emiliano Dias Linhares, o Xamã ‘Gideon dos Lakotas’

Uma nota divulgada na página do facebook oficial do Céu de Nossa Senhora da Conceição confirma o falecimento de Emiliano Dias Linhares, conhecido como Gideon dos Lakotas.

O site oficial não traz maiores informações, apenas que a passagem se deu durante a madrugada, e que seu corpo seria cremado. Segundo a página, as homenagens serão prestadas durante o próximo sábado durante o retiro de carnaval no Céu Nossa Senhora da Conceição, onde Gideon era padrinho, em Cananéia São Paulo.

Até o momento não há informações públicas sobre a causa do óbito de Gideon, que tinha 53 anos.

A atuação de Gideon como líder religioso foi marcada por diversas polêmicas, a começar pelo uso do nome ‘Lakota’, que foi contestada pelos indígenas norte-americanos. Gideon também deu início a uma série de acusações contra o CEFLURIS, uma das principais linhas do Santo Daime, através do seu livro “Santo Daime Revelado”. 

Chegou a ser investigado pela morte da esposa, assassinada por criminosos em uma rodovia do estado de São Paulo. A investigação foi arquivada por falta de provas.

O blog Terra Náuas deixa registrada suas condolências aos familiares, amigos e discípulos de Gideon.