quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lembrete para esse dia 19 de Abril e para todos os outros: descolonizar-me

descolonização
substantivo feminino
  1. 1.
    ato, processo ou efeito de descolonizar, retirando a característica de colônia a.
  2. 2.
    aquisição gradual de independência política, econômica e cultural por parte de antigas colônias.

Detalhe do mural de Cuzco que retrata a colonização da América Andina.Pintor: Juan Bravo
E se de repente, nesse dia 19 de abril, ao invés de fazer as costumeiras homenagens ao indígenas que tanto admiro em meu país e continente, eu resolvesse olhar para mim mesmo, de modo crítico, franco e sincero?

Pois para mim está bastante claro que há muito mais em mim de Aguirre e Anhanguera do que de Atahualpa e de Sepé.

Aproveito a calmaria dessa crise econômica que paralisa a todos, e quanto mais a nós, nessa ponta de mundo que é o Acre para navegar nas páginas de livros que tratam, sob diferentes aspectos, da colonização-ocupação da Amazônia.

Um deles trata-se de ‘Árvore de Rios’ de John Hemming. Folheando seus meandros, vou me reconhecendo. Não nos indígenas ora hospitaleiros, ora arredios, ora valentes e determinados, ora desesperados suicidas, ora dizimados.
Coube aos índios cuja pecha de preguiçosos perdura até hoje, praticamente todo o trabalho braçal empregado no empreendimento colonial.  

Reconheço-me sobretudo na façanha aventureira dos primeiros exploradores, no cristianismo utópico dos jesuítas, na ganância cobiçosa dos colonos.

É que mesmo hoje, século XXI, os paradigmas que conduziram o projeto colonial nas Américas, permanece vivo e atuante. E quando digo tal coisa, não estou excluindo nem a mim mesmo e nem a todos aqueles que com boa vontade muitas vezes abraçam, de variados modos, a causa indígena.

Para quantos de nós esse índio não foi idealizado na figura de um ser-espiritual superior? De outro modo quem irá nos salvar de nosso desencanto? 

Confesso. Eu também. E quando o índio não se encaixa em nossas expectativas de branco sobre o que é ser índio, é porque não é ‘índio o bastante’, ou ‘não é mais índio’, ou ainda ‘não é índio de verdade’. Talvez esse seja afinal o golpe de misericórdia: povos que foram escravizados, evangelizados, ‘aculturados’ ao bel prazer do projeto colonial vigente, ainda podem ter sua identidade definida pelo olhar do outro.

Biraci Jr: Apenas um susto e histórias para contar
Um caso dessa semana chamou a atenção. Biraci Jr, filho do cacique Biraci Brasil do povo yawanawá, juntamente com outros dois companheiros, durante uma caçada, perderam-se por três dias na mata. Não faltou gente a comentar o fato, aparentemente inusitado de que um índio pudesse se perder na mata. Para o senso comum do acreano, índio e mata seriam praticamente uma coisa só. Até aí tudo bem, o problema começa a transparecer quando um apresentador de TV, do alto de sua mais alta ignorância sobre o tema, promove seu preconceito e desinformação ao grau de verdade televisionada. Já apresentei TV e sei que isso acontece, muitas vezes sem maiores intenções de prejudicar, por pura vontade fazer ‘show’. Só que não dá para deixar passar batido. E cumpre o papel de dizer que sim, índio se perde na mata. São fartas as narrativas sobre isso. A novidade, nesse caso específico, é que a velocidade dos meios de comunicação transformou em notícia algo que, em outras circunstâncias, ficaria restrito à aldeia para ser contado ao pé da fogueira, quem sabe em uma rodada de rapé.

Do mesmo modo, posso contar de minhas inúmeras decepções ao idealizar o índio como ‘ser espiritual’, e depois vê-lo, por exemplo, xingando a mãe do adversário em uma partida de futebol, ou tomando umas no bebôdromo da cidade, jogando baralho, comendo linguiça ou apostando dinheiro na roleta do Cassino.

É quando meu alter ego jesuíta diz: ‘Malditos índios que não são o que eu idealizei! Desse jeito vou ser obrigado a olhar para mim mesmo’.

Sete anos atrás, no terreiro sagrado do povo yawanawá, o Muká me deu um Sonho.

Nele, um ser meio homem-meio máquina super-poderoso armado até os dentes com as mais avançadas tecnologias dominava o espaço sideral com uma potente nave.

O ser, que entre outras coisas, tinha domínio sobre a vida e a morte de seus súditos e sobre a estreita passagem entre o céu a terra, terminava por desmontar-se numa infinidade de minúsculas peças, revelando ao fim, seu caráter binário de zero ou um.

Compreendi o recado e desde então tenho aceitado, voluntariosamente a tarefa de ‘desmonte’ de meus padrões de comportamento e de pensamento, que trazem sobretudo, o DNA dos colonizadores desta terra.

Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera
Lembro-me agora da ironia de um velho amigo paulista, ao passar no 'Monumento às Bandeiras': -“E lá vão os bandeirantes, estes bravos desbravadores”,  “-Opa, mas se eles são bravos desbravadores, porque não desbravam a si mesmos”.


A frase tem ecoado em meu, como um desafio para aventurar-me pelas minhas próprias entranhas, e descobrir em cada curva, um pouco daquele tirano tão bem traduzido no sonho do Muká.  

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um relato de caça e trabalho entre os Yawanawá

Infelizmente, o preconceito sobre a relação dos povos indígenas com o trabalho, continua se perpetuando, por meio da desinformação e de gente mal intencionada, que somente consegue ver o outro como mercadoria a ser explorada.  

Neste Abril Indígena, quero dar essa singela contribuição para dirimir esse preconceito, publicando um trecho de meu livro Muká, a Raiz dos Sonhos que relata um período de intenso trabalho em que convivi com o povo Yawanawá, no Alto Rio Gregório.

Junto com Nixiwaká e seu grupo de caçadores, subimos o rio Gregório até o Caxinauá.

Lá está o acampamento de caça, a aldeia e o terreiro sagrado dos ancestrais.

Durante a subida, chamou-me a atenção o alto grau de organização dos yawanawá em suas tarefas. Numa operacionalidade impressionante as funções são rapidamente preenchidas por cada pessoa. 

Enquanto um grupo subia o rio de barco, um grupo menor ia por terra, colhendo frutos e obtendo informações sobre o rastro de animais que poderiam ser, posteriormente, caçados.
Cinco ou seis taperas feitas de paxiúba e cobertas de palha de cocão formavam o acampamento de caça. Os yawanawá mostravam-se bastante à vontade naquelas habitações precárias. Não havia paredes. As taperas eram apenas uma pequena área coberta de palha, elevada do solo por palafitas. O assoalho de paxiubão recebia apenas um ou outro prego ou então era amarrado com cipós.

Durante o dia as infestações de piuns tornavam qualquer passeio pela praia do rio praticamente insuportável. Só na floresta densa havia algum refúgio para os terríveis piuns. Depois do almoço, ao meio dia, éramos obrigados a nos cobrir com lençóis mesmo diante de todo calor.

Mas havia fartura de alimento. Carne de paca, queixada, macaco ou jacaré, ou às vezes, peixes do rio chegavam ao acampamento a todo o momento.  

Acompanhei uma destas caçadas noturnas. Dois grupos se dividiram. Um grupo de caçadores foi para a floresta, enquanto, um grupo menor subiu o rio Gregório. Nixiwaká achou mais prudente que eu acompanhasse o grupo do rio.
Nixiwaká ia à frente com uma lanterna, enquanto um jovem yawanawá, apelidado de ‘Abdão’ varejava lentamente o bote rio acima. Obviamente não se usa motor, para não afugentar a caça. No lugar disso, usava-se um ‘varejão’ - pau cumprido com a qual o piloto toca o fundo do rio e literalmente ‘empurra’ a canoa de maneira semelhante às gôndolas de Veneza.

A princípio acreditei que subiríamos o rio para dar início à caçada a partir de certo ponto em terra firme, mas o fato é que a caçada já havia começado desde quando saímos do porto.

O objetivo era com a lanterna, avistar os olhos de algum animal noturno, em especial as pacas que vêem às praias e barrancos e ficam ‘encandeadas’ com o brilho da lanterna, ‘se esquecendo’ de fugir. Na foz de um pequeno igarapé que despejava suas águas no Gregório, Nixiwaká focou sua lanterna sobre um balseiro de paus e folhas, fazendo refletir a luz nos olhos de um jacaré.
Fazendo o mínimo de barulho possível, ‘Abdão’ aproximou a canoa do barranco. Ele e Nixiwaká não trocaram um apalavra, mas adivinhavam as intenções um do outro. Sem tirar o foco da lanterna dos olhos do jacaré, Nixiwaká mirou sua espingarda e disparou.

Abdão arrastou o animal para dentro da canoa, ainda com vida, conforme iriam comprovar seus roncos guturais durante o restante da noite.

Seguimos rio acima com o novo passageiro. À noite era possível apreciar a natureza sem ter que se esconder dos piuns. Paramos nossa canoa em uma bela praia de areia branca. O céu estava completamente estrelado naquela madrugada. Tomamos um rapé naquele lugar.

A madrugada já ia longe e todos, sem exceção estavam bastante cansados.

Durante a decida, já próximos ao acampamento, encontramos mais uma paca. Estava em um barranco baixo. Desta vez o tiro foi certeiro e Nixiwaká acertou já no primeiro disparo. O “quebra-jejum”do dia seguinte estava garantido.

Os caçadores do grupo que entrara na mata trouxera dois tipos de macaco. Os ‘Isu’- macacos-preto e os ‘Ru’- capelões ou guaribas.

Meninas com mais de dez anos ajudavam na faina de ‘tratar’ (limpar) os animais. Um trabalho que certamente traria horror a uma menina de família de classe média era feita sem nenhum problema por estas pequenas. Vi macacos inteiros serem mergulhados na água quente para lhe retirar os pêlos do corpo, e com a mesma destreza suas mães manejavam as afiadas facas de cozinha para retirar os ‘fatos’ (tripas) dos animais.

Enquanto as mulheres ‘tratavam’ os peixes e animais, os homens, exaustos da caçada noturna, ou iam dormir, ou iam antes retirar os carrapatos acumulados durante a noite na floresta.
Pela noite o jantar era servido pelas mulheres e havia uma grande animação.

Os homens não mexiam nas panelas. Não vi nenhum homem sequer olhar dentro da panela. Isto pareceria falta de educação ou grosseria. Somente as mulheres dos chefes de família eram quem serviam o alimento. Entre eles havia também o mesmo costume do seringal de servir antes o caldo, para que somente depois de acrescida a farinha e feito o pirão fosse servido o ‘nami’ (carne) ou peixe.

Estas mulheres faziam todos os dias o milagre da multiplicação. Talvez se deixassem para que cada um se servisse conforme o seu apetite é certo que alguns ficariam sem comer. Elas exerciam com maestria o seu papel de matriarcas que cuidam do grupo todo. Em sua perfeita matemática faziam com que todos ficassem satisfeitos. Jamais passei fome em nenhum momento, tampouco senti aquela desconfortável sensação comum e desprezível que se tem quando se sai de um restaurante ou uma churrascaria de se estar ‘empachado’ (empanturrado).

Havia também um delicioso suco que era preparado com uma fruta da mata conhecido na região como abiorana.

Algo que me impressionava entre os yawanawá era a sua capacidade de se adaptar ao chamado “mundo do branco”. Itens produzidos por nossa sociedade são por eles utilizados com grande habilidade, maior até, diria do que muitas vezes os brancos que os produzem.
Facas, terçados e machados, por exemplo, haviam tornado-se itens indispensáveis ao seu modo de vida. Seus instrumentos são amolados diariamente, utilizando para isso, limas e esmeris. Com madeira e couro de animais produzem bainhas e cabos para eles.

O fascínio, a admiração e o reconhecimento da utilidade destes objetos em suas vidas faz com que às vezes eles denominem o homem branco como sendo os “Ruwe Nawá” – cuja tradução aproximada seria ‘povo da pedra colorida’ - uma alusão aos metais que em contato com o fogo mudam de cor e emitem o brilho da fundição. Um exemplo foi o de uma faca que fora dada de presente que após algum tempo de uso teve o seu cabo quebrado. Seu dono, um caçador yawanawá, produziu a partir de madeira e restos de sandálias velhas, um cabo tão eficiente e ergonômico quanto o original.

As espingardas recebem um tratamento especial como se fossem ‘animais de estimação’ ou quase ‘membros da família’. Elas são carinhosamente lubrificadas com óleo todos os dias. Algumas ganham adaptações feitas de madeira, para torná-las mais anatômicas, ou então pinturas de kenês (desenhos tradicionais) em preto e vermelho, lembrando as cores do jenipapo e do urucum.
Cada caçador possui um instrumental que é mantido em uma pequena sacola plástica a fim de poupá-los da chuva e da forte umidade amazônica. O material consiste em cartuchos vazios, pólvora, chumbo e espoletas, bem como um pequeno molde em madeira feito por eles mesmos que servem tanto para socar a pólvora nos cartuchos, quanto para moldar o chumbo, quando estes querem um projétil maior, destinado ao abate de caças grandes como queixadas e antas.

A pólvora é socada dentro dos cartuchos juntamente com a raspa de determinadas madeiras, que servem para dar pressão à pólvora e ajudar na explosão.
Não há o mínimo desperdício de nenhum material, principalmente por conta da escassez. Das caçadas em que presenciei a sua preparação, vi que cada caçador não partia com mais do que meia-dúzia de cartuchos cada um. Por esta razão sua pontaria tinha de ser boa e um tiro perdido, sempre era motivo para uma breve lamentação. Pelas mesmas razões, por maior que seja a abundância de animais, a caça é limitada pela escassez de munição.

Todos homens são em algum momento, caçadores, pescadores e eventualmente, coletores (principalmente de açaí, bacaba, patoá e buriti).

A caça é dividida entre os grupos familiares, seguindo a critérios culturais de parentesco e afinidade, o que faz com que a retribuição mantenha as famílias sempre abastecidas, sem que seja necessário o caçador se ausentar todos os dias de sua casa.

Quando acampados em grande número, a caça ganha um caráter de atividade coletiva, ainda que nos momentos chaves, o ato de abater o animal seja de fato, individualizado, ganhando por assim dizer, uma ‘autoria’ que mais tarde será festejada nas narrativas do acampamento.

Caças menores, como aves e pequenos roedores, são denominados embiaras e em ocasiões como esta são sistematicamente desprezadas, pois seu abate significa gasto de munição para uma caça que vai alimentar apenas poucas pessoas. A busca voltava-se para as caças maiores seguindo exatamente esta ordem: anta, veado, queixada, catitu, pacas e macacos em geral.

Barcos e motores também já haviam sido totalmente incorporados ao modo de vida dos yawanawá. Entre eles há exímios pilotos, hábeis em manejar canoas com ‘motor de rabeta’ entre obstáculos proporcionados por paus e balseiros no raso rio Gregório.

O uso intenso de botes e motores sob condições adversas causa um desgaste excessivo e constantes danos nos componentes dos motores. No entanto, os yawanawá provavam ser capazes de promover os consertos necessários, com o mínimo de ferramentas e materiais, prolongando a vida útil dos equipamentos e diminuindo a dependência externa para estes reparos.

A raiz destas adaptações dos yawanawá a um novo modo de vida que dialoga com as tradições é sempre apontada na direção de uma figura histórica quase lendária: Iva Istihu.
Ao seu comando, os yawanawá tornaram-se indispensáveis para a manutenção do Seringal, provendo inicialmente desde caçadores e mateiros, para posteriormente converterem-se em produtores de milho, banana, macaxeira, mel de cana e animais de criação como galinhas, patos, porcos, carneiros e bois.

Rayá

A caça não era, contudo, a única atividade desenvolvida naqueles dias pelo grupo de vanguarda yawanawá. Havia muito trabalho, afinal de contas, pois objetiva-se construção de pequenas casas de paxiúba para a formação espiritual no terreiro do muká e um alojamento para os professores, no alto do barranco.

- Rayá. É como a gente chama trabalho na nossa língua. Engloba uma série de atividades, mas não a caça e a pesca por exemplo. Isso que agente esta fazendo é rayá waki- trabalhar. Desde o plantio e a colheita de mandioca, à construção de casas, ou o artesanato de cocares, brincos, pulseiras e colares, tudo é rayá. Também é rayá o trabalho dos professores, agentes de saúde, e o seu. Tudo é rayá, exceto caça e pesca. Assim explicava-me Nixiwaká.

Um grupo, dos homens mais fortes e mais acostumados aos trabalhos pesados, empenhou-se em localizar, derrubar e trazer as toras de Utxá (paxiúbinha) e Tau (paxiubão) até o Caxinauá. Um grupo maior envolveu-se em uma atividade que embora aparentemente mais leve, exigia ainda mais trabalho: retirar as palhas de jarina para a cobertura das casas. Entramos na sombra refrescante da floresta em busca das jarinas. Com meia hora de caminhada chegamos a um verdadeiro ‘jarinal’. Por uma extensão de uns cem metros quadrados, as jarinas eram a planta que dominava o local, embora houvesse outras espécies de árvores, elas eram incontestavelmente a presença mais importante.

Epe – é como os yawanawá denominam a jarina. A palheira tem grande importância em toda região desde muito antes da chegada do homem branco. Sua palha pode ser usada para a cobertura de casas. 

Os yawanawá e outros povos também usam a fumaça de sua palha queimada, para curar determinados tipos de coceiras

Para este rayá, os yawanáwa não levavam água. A própria jarina que fornece as palhas, dá também um pequeno coco, cujo conteúdo é uma saborosa água adocicada. Os cocos um pouco mais maduros apresentam em seu interior uma geleia saborosa. Quando completamente maduros, o interior do coco torna-se rígido e é comparado ao marfim, podendo ser utilizado para artesanato.

Passamos parte da manhã cortando as palhas de jarina e as arrumando no local, para à tarde, transportá-las. Uma envira atava as palhas em feixe e cada qual levava de cem a duzentas unidades. 

Não me pareceu nada fácil carregar aquela ruma de palhas nas costas pela floresta. Fizemos mais cerca de três a quatro viagens cada um, o que deve tornar próximo de quatro mil palhas transportadas naquele dia. Ao final da tarde fomos ‘virar’ as palhas, que consiste em quebrar cada rama de um lado da palha e invertê-la para o outro lado, tornando-se assim, uma ‘telha’ para a cobertura.

Era muito trabalho de fato, mas a maneira como era desenvolvida, não o tornava estafante. Tudo era executado como uma grande brincadeira, com cada pessoa disputando com a outra quem levava mais, quem era mais rápido, quem fazia melhor. Uma disputa saudável e alegre que tornava o trabalho mais leve.

Não havia nem de longe o menor resquício da proverbial “preguiça” naquelas atividades, tampouco havia a pressa em apresentar resultados ou a pressão de um ‘patrão’, ‘gerente’ ou ‘capataz’, mas tudo transcorria dentro de uma ordem e harmonia.

Pensei que talvez nossa sociedade devesse a aprender com os índios, como trabalhar, sem tornar nossa vida, uma escravidão.

No dia seguinte começaram a chegar toras de paxiubinha e de paxiubão que haviam sido transportadas pelo rio. Com grandes machados, os yawanawá mais fortes, rachavam as toras no meio e com um enxadeco retiravam de dentro a polpa esponjosa, cujo odor, semelhante ao de melancia, logo atraia centenas de besouros e fazia os bois a atravessarem o rio para comê-la.

Depois de ‘esvaziadas’, as toras eram então quebradas e achatadas com marretas, transformando-se em rústicas táboas. O paxiubão, mais pesado e resistente destina-se ao chão, enquanto a paxiubinha, mais leve, era destinada às paredes.

Mais um dia de rayá teve início quando Zé Domigo, um dos filhos mais velhos de Yawá, começou a montar a casa. Sua técnica não era muito diferente dos carpinteiros brancos, embora utilizasse menos pregos e mais cipós e enviras nas amarrações.

Os barrotes de madeira nobre foram assentados formando o alicerce da pequena casa.
Sobre eles foram encaixadas e pregadas peças que dariam sustentação ao assoalho de paxiubão. Feito isso, sobem as linhas que começam a dar estrutura à casa. Acrescidas as paredes de paxiubinha, por último é feita a cobertura, trabalho que exigiu a participação de todos, entregando as palhas de jarina para seis trabalhadores que iam colocando e amarrando as palhas até elas formarem o telhado da casa.

Toda esta etapa de trabalho consumira dez dias.

Durante o dia, os trabalhadores extraiam da mata o material, o ‘beneficiavam’, construíam a casa. À noite e pela madrugada estes mesmos trabalhadores convertiam-se em caçadores e pescadores para garantir a sua alimentação e a de seus familiares.

Assim foi a vida destes “preguiçosos” durante os dias em que vivi entre eles.

*Dedico este texto ao trabalhador yawanawá Zé Domingo.

** Este excerto faz parte do livro:

Muká, a Raiz dos Sonhos. Autor: Leandro Altheman Lopes.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sob a bandeira de Israel, Messias comete crime de racismo

É difícil tratar determinados assuntos quando a pessoa em questão aproveita-se sobretudo da indignação de setores da sociedade para alavancar seu nome.
Sem propostas concretas, sem conhecimento de macro-economia, com uma atuação pífia no congresso, o marketing do ‘Messias’ vive de causar polêmica a partir de suas declarações quase sempre, racistas, machistas e homofóbicas, que acabam por agradar, obviamente, outros setores. E lá vai ele, já na casa dos 10% de intenções de voto, o nosso ‘sargentão sem compostura’ desfilar seus preconceitos de caserna, desta vez agora, sob a ‘proteção’ da bandeira de Israel.

Muita gente questionou como poderiam os judeus, um povo historicamente, massacrado, oprimido e perseguido, fazer um convite a um palestrante, sabidamente racista. Sim, porque o convite partiu da própria Hebraica.

Há ainda ate quem alegue a proximidade de Messias com Israel, uma 'prova' de que o mesmo não seria 'nazista'. Errado. O nazismo do século XXI não tem a cara de Hitler, mas de Netanyahu. A bandeira carrega não a suástica, mas a Estrela de Davi. O 'Espaço Vital', que  Hitler justificou para atacar a Europa Oriental, hoje justificam a criação de colônias de judeus nos territórios ocupados da Palestina. A 'superioridade ariana' deu a vez para 'o povo escolhido'.

Messias é apenas mais uma voz do nazi-sionismo. Afirmar tais coisas não é anti-semitismo, assim como condenar o nazismo, não é condenar o povo alemão.

Em que pese as manifestações de repúdio de muitos judeus (em São Paulo, o repúdio foi suficiente para que o convite fosse cancelado, mas não no RJ), Messias, como aliás, boa parte dos evangélicos neopentecostais, acreditam piamente fazer parte do 'povo escolhido' e por esta razão estão totalmente alinhado com o pensamento nazi-sionista que determina a política de estado em Israel. Inclusive no que diz respeito à política militarizada de segurança e uso e venda de armamentos.
O mesmo esteve lá para ser batizado ‘nas águas do Jordão’. Há um alinhamento perfeito entre a ideologia de uma parte significativa do segmento evangélico brasileiro, com o ideário (nazi)sionista. Se puxar pelo fio da meada, todos se encontram na concepção de um deus etnocêntrico, que abençoa ‘escolhidos’ enquanto justifica atrocidades contra os ‘incircuncisos’. Da mesma cepa parte a concepção do ‘destino manifesto’ com que os EUA justificaram o massacre e extermínio dos povos indígenas.

No cerne disso tudo está a não-aceitação do outro, resquício de um pensamento de quando a ideia de um deus-protetor de um povo, passou a ser adotado como universal.
Claro que há outras concepções possíveis, seja no judaísmo ou no cristianismo. Poderia discorrer sobre o papel de Salomão me realizar a paz com os povos vizinhos e aceitar suas próprias visões de mundo (e de como isso foi posteriormente condenado pelos patriarcas). Ou mais ainda, da visão do Cristo, que em mais de um momento em sua vida, universaliza a benção para além da ideia de um ‘povo escolhido’.

Mas o fato e que essa ideia está profundamente enraizada no pensamento de gente como Messias e vira e mexe, vem à tona. É a negação do outro, tão bem explicitada na frase proferida na Hebraica.

"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais.”

Contudo, mais importante do que discutir teologia, talvez fosse simplesmente aplicar a lei. Messias cometeu crime de racismo contra um segmento da população brasileira e deveria responder por isso. Se o crime foi sob a bandeira de Israel, é só mais um detalhe. Um detalhe revelador, diga-se. Mas ainda assim, um detalhe.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não é ‘nacionalismo’ defender setores que nos mantém na condição de colônia

Fato curioso tem sido o ‘súbito nacionalismo’ que tomou de assalto setores da esquerda brasileira. Não foram poucos os que partiram em defesa do “ogronegócio” após a operação da PF + MPF + JF, com o argumento de que a operação traria prejuízos ao setor.

Bem, a verdade é que trará mesmo, e que bom. Assim talvez falte dinheiro para financiar o desmatamento da Amazônia e o Genocídio Indígena. Ainda que isso possa ser compensado sempre, com trabalho escravo no campo ou mais carne estragada (e maquiada) na mesa. 
Engana-se quem pensa que esses senhores percam alguma coisa. O consumidor está aí para isso: absorver os prejuízos.

O que parece chocante, ainda que nem tanto, é que setores da esquerda, especialmente do PT e do PCdoB têm assumido a defesa do ‘ogronegócio’ como parte de um estratégia de defesa da economia nacional em um cenário globalizado. E aí começam nossas diferenças.
O sistema agro-exportador brasileiro, cantado em verso e prosa em uníssono pela grande imprensa nacional (e também  por setores da esquerda) nada mais é que a continuidade da relação de colônia iniciada no Brasil desde o ciclo da cana. É ‘Plantation’ – Monocultural, 
Escravocrata e Exportador.

Tenho dito que a defesa de setores que nos mantém na condição de colônia não é ‘nacionalismo’ de verdade. Isso porque o ‘plantation’ agroexportador não é e nem nunca foi, um projeto de nação. É apenas um projeto de colônia, defendido com unhas e dentes, por quem deveria almejar a sua superação.

Ouso dizer que se quisermos de fato um dia, nos tornarmos uma nação, digna desse nome, teremos de olhar para além de um projeto engendrado pela coroa portuguesa. Teremos que olhar primeiro para as nações que já existiam antes nessa terra, e que sobrevivem após reiterados apocalipses. Se ‘nosso’ projeto de nação não inclui também ‘eles’,  já nasce aleijado.

A Imprensa Subserviente e a política travestida de anti-política

Dizer isso não equivale a tecer louvores à operação da PF (+MPF + JF). Trata-se de mais uma operação midiática, que tem por objetivo ‘manter a opinião pública em estado de permanente exasperação e mobilização rancorosa’, para tomar palavras emprestadas de Reinaldo Azevedo.

Aliás, não custa perguntar: se a PF tinha conhecimento das denúncias há sete anos atrás, porque não tomou atitude antes? O que ficou fazendo esse tempo? Enchendo linguiça?

Nunca imaginei que viveria um dia para concordar com Reinaldo Azevedo. Mas em seu mais recente artigo, o colunista apenas confirma antigas suspeitas:
  • Setores do Judiciário, MPF e PF, a pretexto de 'punir a política 'corrupta' do país', não fazem outra coisa senão POLÍTICA. Ou seja fazem política travestida de anti-política.
  • Ao contrário do que transparece ao senso comum, o esquema de delações premiadas promove na verdade, a IMPUNIDADE que diz combater, afinal, qual é o que da delação se não a impunidade do delator?
  • Setores da imprensa tem agido de forma SUBORDINADA a estes órgãos - aquilo que em meus textos tenho chamado de 'agir como assessoria de imprensa de PF, MPF e JF'
Azevedo toma essa posição em defesa de seus próprios interesses, agora tão claramente contra os órgãos que antes louvava quando voltavam-se contra seus adversários, é justamente porque tem amigos e aliados no setor hora ameaçado.

A PF (+MPF + JF) deseja ardentemente que a sociedade se coloque sob sua égide protetora, e a imprensa parece aplaudir o protagonismo que é incapaz de exercer.

Mas, passada a ‘febre’, a mesma grande imprensa que com facilidade se curvou à narrativa da PF, agora curva-se aos seus maiores anunciantes: o ‘ogronegócio’.

Questionar a atuação desses órgãos cada vez mais ‘fora da casinha’, é facilmente confundido com ‘defesa do orgronegócio’. Pode ser para muitos, mas para outros tantos trata-se do necessário resguardo de quem não deseja criar os corvos do autoritarismo.

Fosse uma partida de futebol com um time representado pela PF e outro pelo ‘Ogronegócio’, o melhor resultado possível seria que ambos quebrassem as pernas.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ninguém Liga ...

... para os animais que morrem atropelados na BR 364 

Meu fim de semana foi marcado por um incrível vai e vem entre Cruzeiro do Sul e o Rio Cigana, onde o afundamento da cabeceira da ponte, causou uma interdição temporária na BR 364. Foram umas oitos viagens ao todo. Não reclamo, até gosto, principalmente por passar por aquele trecho incrivelmente bonito coberto de mata nativa entre o rio Juruá que se estende até o Croa e termina pelo Lagoinha. A parte triste é se deparar com animais silvestres mortos na pista por atropelamento.

Em geral são as cobras, especialmente jiboias e sucuris, que são atropeladas naquela área, na maioria das vezes, propositalmente por motoristas que acham ‘estar fazendo um bem’, ao tirar a vida de uma cobra.

Sempre há também as mucuras. Mas quem se importa com aquele bicho feio e fedido, ladrão de galinhas? O marsupial que é considerado um fóssil vivo dos primeiros mamíferos pode ter sobrevivido ao meteoro que dizimou os dinossauros. Mas será páreo para as rodas? Também já vi mambiras (um tipo de tamanduá, para quem não conhece) e bichos preguiça, para citar outros mamíferos. Em tempos de alagação, jacarés cruzam a pista em busca de abrigo e muitas vezes acabam esmagados pelas rodas de carros e caminhões oferecendo um triste espetáculo para quem passa em seguida.

Se as pessoas não param sequer para gatos e cachorros, animais com que a raça humana compartilha experiências há milênios, o que se dirá cobras, lagartos, mucuras e preguiças?
Mas com tanta coisa para se preocupar, como as mercadorias que poderiam estragar na estrada, causando alta dos preços, porque esse jornalista(zinho, segundo alguns), vai se preocupar logo com os bichos.

O problema é que minha empatia não se encerra na humanidade. É claro que as agruras dos humanos me comovem. Mas os bichos também contam com a minha empatia. Deve ser porque sou de Oxóssi que sinto o pulsar do coração de um enorme lagarto jacaré que agoniza na estrada. Inteiro ele deve ter algo perto de um metro e meio, mas sua cauda está separada do corpo. E ainda se mexe. Não deixo de me admirar da beleza de suas cores que vão do verde ao vermelho em escamas que fazem lembrar os lendários dragões. Sua cabeça triangular traz uma boca larga. Parece até esboçar um sorriso que me leva a entender o que João Ubaldo Ribeiro quis dizer com ‘O Sorriso do Lagarto’.   

Vão passar décadas falando sobre a BR, sua trafegabilidade e sua importância, recursos investidos, aplicados e segundo alguns, desviados. Vão falar sobre a dificuldade de fazer uma rodovia em solo amazônico, das chuvas que não deixam as máquinas trabalharem, dos rios e igarapés que transbordam e acabam com a pista, da necessidade de se importar pedra e que a mesma pedra trazida para fazê-la, ajuda a destruir o que já foi feito. Vão falar sobre substiuí-la por uma ferrovia e apontar dedos um na direção do outro sobre porque ela está do jeito que está.

Mas os bichos não falam e então eu falo por eles. Falo que a rodovia foi embargada porque passa em uma região amazônica de alta biodiversidade, e que foi liberada mediante o compromisso de que haveriam passagens para os bichos, mas as passagens não foram feitas porque custariam caro, mas a rodovia custou caro mesmo assim. E mesmo assim, quem liga?

Já que não posso salvá-lo, decido que vou ao menos retirar seu corpo da pista. Colocá-lo na terra. Da terra à terra. Não quero ver aquela beleza esmagada continuamente pelas rodas dos carros e caminhões. Quisera eu poder retirar todos os bichos da estrada. Quisera eu que nenhum sequer morresse assim.   

Levo alguns minutos observando aquelas escamas perfeitas que parecem ter saído de um filme de ficção, mas obra nenhuma feita pela mão do homem terá a perfeição das escamas do rei lagarto.

...

Vestindo a roupa de gente de novo, digo: já que a rodovia será reconstruída que tal fazer as passagens para os bichos agora? Já que Cruzeiro do Sul almeja tornar-se polo turístico, tais passagens ajudarão a preservar o valor biológico de nossa região. Quanto dinheiro um gringo estaria disposto a pagar para ter uma fotografia como daquele lagarto morto na estrada.  

*Fotos retiradas da internet. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Morre Emiliano Dias Linhares, o Xamã ‘Gideon dos Lakotas’

Uma nota divulgada na página do facebook oficial do Céu de Nossa Senhora da Conceição confirma o falecimento de Emiliano Dias Linhares, conhecido como Gideon dos Lakotas.

O site oficial não traz maiores informações, apenas que a passagem se deu durante a madrugada, e que seu corpo seria cremado. Segundo a página, as homenagens serão prestadas durante o próximo sábado durante o retiro de carnaval no Céu Nossa Senhora da Conceição, onde Gideon era padrinho, em Cananéia São Paulo.

Até o momento não há informações públicas sobre a causa do óbito de Gideon, que tinha 53 anos.

A atuação de Gideon como líder religioso foi marcada por diversas polêmicas, a começar pelo uso do nome ‘Lakota’, que foi contestada pelos indígenas norte-americanos. Gideon também deu início a uma série de acusações contra o CEFLURIS, uma das principais linhas do Santo Daime, através do seu livro “Santo Daime Revelado”. 

Chegou a ser investigado pela morte da esposa, assassinada por criminosos em uma rodovia do estado de São Paulo. A investigação foi arquivada por falta de provas.

O blog Terra Náuas deixa registrada suas condolências aos familiares, amigos e discípulos de Gideon. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Apu Auzangate e a dimensão material do sagrado

Auzangate: 6384 mts de altitude
É a segunda vez que cruzo os Andes naquela altura. Na primeira em 2009, realizei a façanha em uma moto 125 cilindradas. Acima de 4 mil metros de altura ela mais fazia barulho do que andava. Poderia ter escrito um artigo sobre como cruzar os andes em um barbeador elétrico, já que era o que sugeria o som do motor: um barbeador elétrico. O pouco oxigênio das alturas afeta drasticamente o rendimento dos motores. 
Aliás, não apenas os motores, mas de toda a vida. Naquela ocasião tive de fazer a subida em duas etapas. Uma parada em Marcapata, onde me assombrei com a história de condores atados nas costas de touros: costume andino que desconhecia e que estava representado em uma estátua de bronze de bronze na praça da cidade.

Recordo-me do clima aconchegante de uma pensão, onde moradores locais conversam animadamente em quétchua. Um deles, um jovem médico, tenta me fazer entender a formação das cadeias de montanha. É inútil. Meus conhecimentos geográficos não são suficientes para compreender as cadeias de montanhas, seus meandros e sobretudo, o significado para aquela gente.

Mas eles também ficam surpresos e estupefatos quando lhes digo que tanto o Madre de Dios, que corre pela face ocidental da montanha, inicialmente com o nome de Iñambari, quanto o Vilcambamba, que nasce na mesma cadeira de montanhas e corre no sentido contrário pela face oriental, unem-se novamente a quilômetros dali, quando o rio Madeira encontra o Amazonas. Olham-me com uma certa perplexidade. Era como se para aquele povo a proeza das águas contornarem o incontornável Auzangate fosse impossível. Ali a geografia era uma questão de sentir na pele da face, nos músculos das pernas e no ar dos pulmões, e em seus corpos eram marcados pela grandeza do Auzangate. Os rios serpenteantes das infindáveis planícies da Amazônia não fazem parte desta realidade.

A vantagem de subir em duas etapas, foi o tempo necessário para uma adaptação à altitude. Quando cheguei à Abra Piurani, a 4237 mts, não senti absolutamente nada além do frio, com a proverbial ajuda, é claro, das folhas de coca.

À minha frente, este ele, o Auzangate: um trono celestial que se ergue em direção ao firmamento, impondo à geografia, sua condição divina. Talvez por isso, haja tantas oferendas na margem da estrada. A maioria são montículos de pedra em que são depositadas folhas de coca, mas há também algumas de bebida e retalhos de lã colorida.

Intuitivamente, faço o mesmo, e oferto ao Auzangate um punhado de folhas de coca, arrumadas em um montículo de pedras. Uma singela homenagem ao gigante cujo olhar das alturas, é inescapável.

Desta vez estou com um equipamento melhor. Minha moto tem 250 cc e injeção eletrônica, o que significa uma capacidade de auto regulagem. Com isso, a moto perde pouca potência e a subida acontece de uma única vez. Mas, desta vez quem sentiu fui eu. Faltando alguns quilômetros para o ‘abra’, sou tomado de uma vertigem, como quem olha para baixo do alto de um arranha céu. 
Concentro-me, e depois de serpentear cuidadosamente, e sem nenhuma pressa pela estrada, finalmente consigo chegar ao ‘abra’, já totalmente consciente que é o poder do Auzangate que rege minha sorte.

Desço da moto e apesar da belíssima paisagem, nem sequer penso em selfie. Quero mesmo é me por de joelhos aos pés do Auzangate, agradecer por ter chegado até ali, e pedir proteção para o seguimento da viagem. Me vem a memória um velho amigo, o acreano de origem libanesa Gamal Murad. Tão apaixonado quanto eu por aquela montanhas, Gamal sofreu um acidente fatal naquelas altitudes, no final do último ano. A lembrança de que era um responsável motorista e experiente naquelas estradas, somente reforça meu temor de percorrê-las.

Dou poucos passos e a vertigem me domina por completo. Faço uma pequena oferenda de folhas de coca, pedindo ao Auzangate que me permita ir e voltar daquela viagem. Substituo a coca já mascada por um novo chumaço e quando vou subir na moto, sinto um quase desmaio. Aí para frente vem a descida, o que torna este trecho especialmente mais perigoso. A moto morre e não consigo dar na partida novamente. Sou obrigado a deixar que pegue um embalo na descida.

Olho par os lados. Nenhum caminhão. E deixo que a montanha faça o trabalho que minhas pernas, naquelas condições, jamais poderiam. Felizmente, não é preciso muita descida e ela logo pega no tranco.

Vou serpenteando montanha abaixo com atenção redobrada. Se a face ocidental dos andes estava relativamente quente e seca, a face oriental incrivelmente está fria. O degelo dos andes parecem acentuar a sensação térmica do frio. Mas o frio intenso também permite sentir a radiação solar das paredes das montanhas. Aquele SENTIR me traz algo de devoção, análogo talvez ao que um fiel sinta durante um culto em sua igreja. Ali está a maior de todas as catedrais, com paredes de rochas, vitrais de gelo e fontes de cristalina, aquecidas e iluminadas pelo Sol no firmamento.

Penso que estou tendo ali, um vislumbre do que possa ser a cosmovisão andina: um sentido de devoção não voltado ao abstrato, mas às coisas materiais e concretas que determinam nossas vidas. Por isso talvez, o epíteto APU Auzangate – Senhor Auzangate. São senhores absolutos da vida ali afinal, a montanha, e o Sol.

E como vivem afinal, naquelas altitudes, aquele povo de face rosada, queimada pelo Sol, pastoreando suas lhamas, em casas feitas de rocha e adobe. Sabem melhor que ninguém quem são os senhores que ensinam a viver em condições tão extremas.

A indicação de uma pequena parada ‘caldo de cordeiro’, parece promissora. E de fato é. O caldo e um chá de coca e um pouco de maca me põem de pé novamente. Mas eu, o garoto tropical, cometo a burrice de deixar o capacete no espelho da moto. Ao vesti-lo novamente me dou conta da burrada: havia se convertido em um bloco de gelo. O resultado do frio agudo sobre as têmporas é uma persistente dor de cabeça. Mais à frente vem chuva. ‘É só um sereno’, penso eu, mas o ‘sereno’ ainda que não se compare com as chuvas torrenciais com que me acostumei na Amazônia, traz um frio que penetra até os ossos. As luvas já não adiantam de muita coisa e minhas mãos estão dormentes. Nas pernas, anuncio de câimbras. E na alma o medo de que a falta de sensibilidade me leve a um acidente.

Paro a moto e urino sobre minhas mãos: um jeito estranho, mas eficaz de trazer de volta a sensibilidade perdida com o frio.

Serpenteio a estrada até o seu fim em Urcos e depois em uma quase reta até Cuzco.
Já depois de um banho e aquecido sob cobertores, as redes sociais trazem notícias sobre minha cidade, Cruzeiro do Sul, enfrentando uma alagação sem precedentes históricos.

“O Juruá é nosso APU’, penso eu, em uma improvável adaptação amazônica da cosmovisão andina. 
rio Juruá


Mas aqui é ele afinal, quem determina nossa vida. Suas infindáveis curvas, serpenteando amazônia adentro é que dizem como devemos viver por estas bandas. Se há terra para habitar, é por que o rio assim permite. Se a serpente se mexe -e ela se mexe - águas e terras cambiam seus lugares e somos nós, e não Ele, o APU Juruá, que tem de se adaptar.

“Não faz sentido essa divisão entre material e espiritual. Essa é uma divisão da mente do homem branco, do europeu, do dito civilizado, que precisa voltar sua devoção ao abstrato, para se livrar do sentimento de culpa de quem profana o mundo que habita”.


Tais palavras me foram ditas por um ‘Amauta’ (sábio) andino, anos atrás e encontram eco, nas palavras de Ailton Krenak: “O sagrado está no olhar de quem vê, e quem vê uma montanha apenas como uma pilha de minérios a serem transformados em quinquilharias, certamente não pode, ou não consegue, ver a dimensão sagrada de tudo que nos cerca.”