segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Com o Pé Esquerdo

A campanha nem bem começou a coordenação de campanha (?) de Ilderlei Cordeiro acumula tropeços.

Ilderlei, ou sua assessoria, transparece não saber mesmo a diferença entre o perfil público e privado do candidato. Assim, esconde o que deveria mostrar, e ostenta, aquilo que o bom senso recomendaria maior prudência e discrição.

O episódio das Olimpíadas foi revelador de como Ilderlei não sabe muito bem onde está pisando. Ao 
invés de dar ampla divulgação de sua visita às olimpíadas e traçar paralelos sobre, quem sabe, projetos na área de esporte para Cruzeiro do Sul (pretensamente, uma de suas principais bandeiras), Ilderlei preferiu silenciar nas redes sociais, mas algum ‘gaiato’ acabou tirando uma foto dele em uma transmissão do Sport TV, e encaminhou a este jornal.

E aí, sinto muito, mas um pré-candidato à prefeito de Cruzeiro do Sul nas Olimpíadas é notícia, pelo menos em Cruzeiro do Sul. Quem duvida, veja que alguns dos principais sites noticiam assuntos muito menos relevantes. Isso sem qualquer juízo de valor sobre o fato de ir ou não às Olimpíadas. 
Mas dar a isso o tom positivo, ou negativo, depende de sua assessoria, ou de saber exatamente o que está se fazendo.

O segundo tropeço foi a ampla divulgação dada à sua declaração de bens de 28 milhões. Olha, eu nem sei bem porque, já que do meu ponto de vista, me parece mais honesto declarar os bens do que subvalorá-los, como evidentemente, fez Vagner Sales (1 milhão e 780 mil, faz-me rir!). Mas, vai entender o povo, e acabou pegando mal, como se estivesse ‘ostentando’.

Para piorar a coisa, o ‘candidato ostentação’, ou seus apoiadores, acabaram abrindo a ‘caixa de pandora’, com gente questionando, dessa vez, vejam só, se esse patrimônio todo é dele mesmo, ou ele declarou os bens dos pais que ainda não foram inventariados?

A estratégia era clara: mostrar que ele não está ‘quebrado’ como andou se comentando pela cidade. 

Ocorre que quem jogou isso ao vento, de que ele teria ‘lascado’ os bens da família, foram seus 
apoiadores e não seus adversários. A história de que Ilderlei não sabia administrar nem o ‘galinheiro da família’ é de autoria do mesmo rei da bravata que prometeu andar de saias sobre a ponte, caso ela ficasse pronta. Não deveriam enviar essa pergunta ao campo adversário, mas ao próprio apoiador Vagner Sales.

Só que pelo jeito a estratégia, como naquelas brincadeiras de ‘batalha naval’ deu ‘água’.
A emenda seguinte foi questionar o fato de que a Dra. Carla não declarou bem algum ao TRE.

É incrível como em um país tão acostumado à corrupção, justamente a honestidade e transparência a que ninguém ousa, passa a ser alvo de desconfiança. E lançar uma desconfiança dessa, no dia da procissão da padroeira? É muita falta de 'timing'.

Também soa arrogante a ideia de que só pode governar uma cidade quem tem dinheiro. Esse tempo já acabou. No dia 03 de outubro vamos apenas saber se os cruzeirenses já se deram conta disso.

A pergunta sobre como uma pessoa que não tem bens pode administrar uma cidade, será respondida durante a campanha. Como? Simples: sem desviar nenhum centavo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Embiaras, a batalha dos séculos, tracajás em desova e outras historietas

Embiaras

Para quem já acompanha o blog Terranáuas há algum tempo, também já deve estar acostumado às suas ‘embiaras’.
Acontece que o blog foi criado especialmente para tratar de temas mais ligados às questões indígenas, ambientais e espiritualidade. Mas como realmente não há como fugir temas políticos, acabei criando a coluna ‘embiaras’. O próprio nome reflete um preconceito meu de que a política seria um tema menor, algo de menor importância e que não enche barriga. Isso porque embiara, para quem não sabe, significa caça pequena.
Minha própria concepção sobre a política ser algo menor, mudou, mas resolvi manter o nome porque gosto dele: embiara.
Isso porque já passei décadas de minha vida dizendo ‘OM’ pra tudo e se isso, por um lado me ajudou a não perder o eixo, por outro, não mudou nada a realidade à minha volta. Não há como fazer belos vasos de cerâmica sem sujar as mãos de barro, e o barro meus caros, é a realidade. Em seu livro, Tawantinsuyu, o Xamã Alonso Del Rio, explica, que na cosmovisão andina, não há como professar uma espiritualidade verdadeira sem antes desenvolver um profundo senso de amor pela realidade.
Assim sendo, a ‘isenção’ só existe como condição ideal, porém nunca real do ser humano. Sempre estaremos em maior ou menor grau, envolvidos nas questões que nos cercam, como sujeitos políticos. Há aquela velha máxima de que mesmo quando escolhemos ser apolíticos, esta escolha é política.
Portanto, vou deixar os falsos pudores de lado e ‘sujar as mãos de barro’ na realidade. Quem sabe ainda faço uns vasos bonitos.

Caçadores, à caça!

A batalha dos séculos

Não senhores. Esta não será uma disputa entre esquerda e direita, ou entre pobres e ricos. A eleição municipal deste ano em Cruzeiro do Sul será para escolher se a cidade entra para o século XXI ou permanece presa a mesmo coronelismo de tonalidades feudais do século XIX.

Carla não restringe seu eleitorado somente entre os tradicionais apoiadores da FPA no Juruá. Tanto que tem igualmente admiradores no campo da direita, em setores que sempre foram críticos ao PT e à FPA.

Primeiro, porque Carla transmite a segurança de quem, se for dada a oportunidade, irá gerir a coisa pública com a responsabilidade e transparência que tanto fazem falta na administração municipal.

Segundo, porque a delegada está muito, mas muito longe dos estereótipos dos militantes de esquerda, com suas frases feitas, seus bordões ultrapassados, e seu sectarismo.

Ainda assim, um olhar atento vê nela sim, uma política identificada com a esquerda. Não numa camisa vermelha, ou num punho cerrado, mas no olhar atencioso, no sentimento da importância da dignidade humana.


Escolher Carla Brito significa que escolher o novo, a modernidade. Significa escolher dizer que a política deve ser gerida por interesses públicos e não familiares. Escolher o mérito e não o nome.  A coisa pública, e não a ‘cosa nostra’.

Não sou guru ou vidente, para fazer previsões astrológicas sobre o resultado das eleições. Baseado nas conjecturas políticas de pretensos 'especialistas' o mais acertado seria dizer que o povo vai quer sempre 'mais do mesmo'. 

Quero pensar que não, e que o desejo de mudança possa ser traduzido na forma do voto em Carla Brito.

O meu voto, está definido em Carla Brito e nunca antes, em uma eleição municipal, terei dado um voto com tamanha convicção.

Fica o leitor portanto sabedor de minha própria posição política, o que considero mais honesto do que escamotear minha opinião por trás de uma falsa isenção.

Dito isso, vamos portanto à análise

Esta será minha quarta eleição municipal da qual participo em Cruzeiro do Sul. Cheguei na cidade do ano de 2000, as vésperas da eleição que deu a César Messias a prefeitura da cidade. Depois disso tivemos: Henrique (PT) X  Zila (PTB). Zinho (PP) X Vagner (PMDB) e novamente Henrique (PV) X Vagner. 

Como todos sabemos, em nenhuma dessas ocasiões a FPA conseguiu eleger o seu candidato. Ainda que sempre mantivesse uma pequena margem de diferença em relação ao vitorioso. Um destaque para Henrique Afonso em 2012, que definitivamente, venceu Vagner Sales na área urbana da cidade.

Henrique crê, e com acertada dose de razão, que é um bom nome para a disputa da prefeitura de Cruzeiro do Sul, mas que sua aproximação com a FPA foi o fator decisivo para sua derrota. Nunca faltou gente para dizer 'gosto do Henrique, mas ele é do PT' (mesmo quando ele disputou pelo PV), assim como não faltará gente para dizer 'gosto da Carla, mas ela é do PT, mesmo que ela seja do PSB, partido que fez oposição à Dilma e faz parte da base de apoio ao governo Temer.

Esse tipo de eleitor, que 'gosta do candidato fulano, mas não vota porque ele é do PT' é um 'brincante': sempre vai votar nos candidatos indicados dentro da mesma estrutura patriarcal-coronelista que domina a cidade. 

Há um eleitor 'cativo' que vota na FPA, ou por afinidade com o modelo, ou por rejeição às figuras políticas locais, normalmente pactuadas com feudos familiares e aos setores a quem mais interessa o atraso social e a dependência econômica da população.

De modo antagônico, outra parcela da população, sempre viu no voto dos candidatos de oposição ao governo, uma forma silenciosa de resistência, seja às vontades da corte riobranquense seja ao vermelho do PT. Por essa lógica, os candidatos de oposição ao governo, depois de eleitos, nunca precisaram fazer muita coisa para viabilizar-se politicamente. Bastava, é claro, continuar na oposição ao governo. Quanto mais xucra e anedótica possível essa oposição, melhor, mesmo que isso custe um atraso de mais de uma década no desenvolvimento da cidade. 

E o que há de diferente nessa eleição, ou mais especificamente, na candidatura de Carla Brito?

Tracajás

A ironia é que a 'forasteira' Carla Brito é justamente a mais 'cruzeirense' das candidaturas. Carla está totalmente apoiada em um trabalho realizado em Cruzeiro do Sul. Não em Brasília ou Rio Branco. Por aqui o que não faltam são os 'cruzeirenses' que passam anos fora, montam suas vidas em outras cidades e como os tracajás que não moram na praia, voltam nela na época de 'botar os ovos'.

Pela primeira vez, temos uma candidatura que se articula por afinidades de princípios e não por determinações de caciques. É por isso que não estranha, por exemplo, que Carla, 'uma mulher da lei' possa encontrar apoios tanto entre militantes de esquerda, quanto entre aqueles normalmente mais conservadores e identificados com a direita. O primeiro anseio é de que o candidato seja comprometido com a transparência, com a ética na política. Carla satisfaz esse anseio do eleitor e por isso tem sido capaz de agregar pessoas para além dos 33%, 'cativos' da FPA. 

Carla já é um fenômeno e a pesquisa fajuta do PMDB que a coloca com 11%, antes mesmo de ser lançada, é somente mais uma prova disso. 

O que mais impressiona é a capacidade de Carla agregar pessoas das mais diversas, de trazer de volta o interesse político para um tipo de eleitor que sempre via nas eleições, 'mais do mesmo'.

Química

Nas próximas semanas, Carla deverá iniciar o processo de consulta pública para o Plano de Governo. 

Sim, isso mesmo, Carla, a 'forasteira' respeita a vontade dos cruzeirenses e vai ouvir a nós todos, antes de registrar o seu plano de governo. Você foi ouvido no plano dos demais candidatos?    

Nesse processo, poderemos mensurar como será a química Carla + Povo. 

Sendo também eu um 'forasteiro' com dezesseis anos de Juruá, eu aposto, que a Pernambucana de Petrolina consegue se identificar, falar e sobretudo, ouvir a linguagem do povo, bem mais do que alguns tracajás que desovam nessas praias a cada quatro anos.

Digo isso imitando para mim mesmo um sotaque pernambucano e ouço, lá no Cais do Porto, uma resposta em alto e bom 'acreanês':


- Má vai mermo!

  



quinta-feira, 23 de junho de 2016

A Onça e o Fogo

A morte a tiros da Onça Juma, mascote do Batalhão de Selva de Manaus, durante a passagem do Fogo Olímpico é mais um fato que vem se somar à cada vez mais extensa lista de fatos vergonhosos em relação às Olimpíadas no país.

Se já não bastassem as remoções forçadas, as obras superfaturadas e atrasadas, o Baía de Guanabara poluída, a desfaçatez de uma classe política ilegítima e sem representatividade real, agora temos também para a vergonha geral da nação, um animal símbolo abatido minutos depois de posar como 'figurante' da passagem da tocha.

Alguém já disse que 'somos todos onças': figurantes em uma celebração cuja 'presença' do povo brasileiro é meramente ilustrativa de um 'povo cordial e feliz' que somente permanece vivo na memória de marchinhas de carnaval.

Somos o povo cordial e feliz que mais avidamente destrói e mata no mundo. Segundo relatório da Global Witness, o Brasil foi no ano de 2015, o país em que mais se mataram ambientalistas. Cinquenta segundo o relatório. Somos seguidos pelas Filipinas e Colômbia, com 33 e 26 respectivamente.

Isso em certa maneira, equivale a dizer que a Onça Juma, antes de morrer, já estava morta. Este aliás tem sido o principal argumento daqueles que se propõe a minimizar e relativizar o fato. O Exército recebe dezenas de animais capturados pelo IBAMA de traficantes ilegais, ou quando por acaso algum destes animais 'invade' uma propriedade.A Onça Juma morreu sua primeira morte quando teve seu habitat natural destruído para dar espaço a alguma fazenda, ou barragem ou garimpo. Uma segunda morte na mão de traficantes. Uma terceira morte, simbólica, quando, ela, a senhora absoluta da floresta foi acorrentada para tornar-se figurante involuntária da pantomima olímpica. E finalmente o tiro de misericórdia, quando um esturro e um movimento 'suspeito' trouxe a tona sua verdadeira natureza: uma Onça viva em carne, osso, garras, dentes e pintas sempre será mais do que apenas o símbolo de bravura a que se pretende.

Mas, para muito além da comoção pública da morte de um animal que não escolheu estar ali, e para muito além de mais essa vergonha nacional, há outros 'símbolos em movimento' que merecem ser recordados, para que não se tornem apenas gestos ensaiados e repetidos, vazios de significado.

O primeiro deles trata-se da própria Tocha Olímpica. A tocha simbolizava para os antigos gregos que instituíram as Olimpíadas, o Fogo roubado de Zeus por Prometeu.

Contam os mitos que Zeus teria proibido os demais deuses a dar ao homem o fogo, já que com ele, poderíamos nos igualar aos deuses.

A ordem de Zeus foi desafiada por Prometeu que após roubar-lhe o Fogo, presenteou-o a humanidade.

É bastante evidente que, para os gregos antigos, o Fogo é o que diferencia o Homem das demais espécies, colocando-o mais próximo da Divindade.

Esse tema, de algum modo, reaparece nos mitos ameríndios. Com a diferença que os povos nativos da América, é justamente a Onça, a Dona do Fogo.

Os mitos contam a história de como a Onça, (ou como prefiro, Jaguar) era a primeiro dona do fogo, em um tempo mítico em que a o homem comia cru e a onça, cozido.

A partir daí surgem variações de como este fogo chegou até o homem. Em algumas histórias, o fogo é roubado da Onça por meio de astúcia. Em outras versões, a Onça, meio que apiedada da condição humana, voluntariamente dá aos homens o Fogo, como um presente.

O Fogo é o marcador civilizatório, a fronteira entre o Cru e o Cozido. É também a fronteira entre o mundo ‘cultural’ humano e o selvagem mundo ‘natural’. Ou se preferir, dentro de uma perspectiva indígena, o Fogo é o que marca e diferencia a cultura humana, das culturas da outras espécies, já que essa fronteira artificialmente imposta entre natural e cultural parece não constar nas referências indígenas.

Entre estes dois mundos, estas duas perspectivas, está o Fogo.

Ou seja, em outras palavras, isso equivale dizer que o Fogo, aquilo que diferencia o Homem das demais espécies, aquilo que cria a perspectiva humana, é na verdade, um legado da Onça.

Não espero com isso que ‘os outros’ passem a venerar a Onça como ‘animal sagrado’. Afinal, como diz Ailton Krenak, o sagrado está nos olhos de quem vê, e quem vê em uma montanha, rio ou floresta apenas recursos a serem pilhados, jamais terá a oportunidade de ver algo além disso.

Continuarão sem saber que a luz primeira, aquela que acende as tochas com que se caminha nas escuridões, todas elas, já nasceu primeiro, antes da primeira alvorada, no brilho dos olhos do Jaguar.

sábado, 28 de maio de 2016

Sobre a Cultura do Estupro

O estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro popularizou o uso da expressão ‘cultura do estupro’. Aparentemente, na minha Time Line, muita gente teve contato com o termo pela primeira vez, e a julgar pelas postagens, de homens e de mulheres, há muita incompreensão do significado e consequentemente uma rejeição ao uso da expressão ‘cultura’ associado ao ato violento do estupro.

A expressão refere-se a um conjunto de normas e crenças que resultam na banalização do ato do estupro, ou, ainda mais frequentemente, a culpabilização da vítima pela violência sofrida.
São as ‘tradicionais’ (e portanto, sim, culturais) ‘explicações’ ou ‘justificativas’: ela usava roupas curtas demais, ela provocou, ela queria, e etc...  

O termo  cultura do estupro foi cunhado pelo movimento feminista ainda na década de 70 aplicada á cultura dos EUA como um todo.  Posteriormente foi identificada pela sociologia, antropologia e psicologia. Parte integrante dessa ‘cultura’ estaria a transformação da mulher em objeto.

“Há culturas em que isso é coibido. E são culturas em que há uma disparidade menor entre gêneros, em níveis diversos - na representatividade política, na igualdade de salários, na divisão de tarefas dentro de casa. Não é apenas um viés [de igualdade].”
Arielle Sagrillo Scarpati, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo e doutoranda em Psicologia Forense pela University of Kent, na Inglaterra

Contudo, o tema é controverso e também há críticos desta concepção.

Caroline Kitchens, pesquisadora do American Researsh Institute, por exemplo, rejeita a ideia de que a responsabilidade do estupro seja de uma ‘cultura’ e não de indivíduos. E argumenta:

“Temos leis rigorosas que os americanos querem ver aplicadas. Embora o estupro seja certamente um problema sério, não há nenhuma evidência de que ele é considerado uma norma cultural. Século XXI América não tem uma cultura de estupro; o que temos é um átrio fora de controle, levando o público e os nossos líderes educacionais e políticas para o caminho errado.”

Ainda em seu texto ‘Its time to end rape-culture hysteria’, Caroline sugere que a concepção de uma cultura do estupro esteja levando o país a uma espécie de ‘histeria‘ , em que músicas, peças de teatro e até mesmo esculturas, são classificadas como ‘cultura do estupro’, perdem espaços públicos e chegam a ser censuradas.

Pode ser que de fato, alguns exageros estejam sendo cometidos nos EUA em nome de se combater a ‘cultura do estupro’. Aqui nessas plagas latinas, pode-se perceber que existe sim, uma cultura muito forte de objetificação da mulher e que a ideia de se culpar a vítima pela violência sofrida, ainda é um argumento muito comum. Não por acaso foram criadas as delegacias da especializadas nos crimes contra a mulher, já que muitas vítimas, após terem sofrido ainda tinham (e ás vezes ainda tem), de lidar com preconceito e machismo de delegados mau preparados.

Há duas imagens que ilustram bem a ideia de ‘cultura do estupro’. A primeira delas, do desenhista Milo Manara, em que retrata o estupro, e o sentido de posse, intimamente ligado ao primado da violência.

A segunda, uma campanha da Dulce & Gabana, que francamente, não remete a outra coisa senão a um estupro. Uma campanha publicitária como esta é praticamente uma prova física de que não apenas existe uma cultura do estupro, fundamentada nos aspectos mais atávicos da humanidade, mas como se renova através da comunicação de massas.




Homem, branco, e heterossexual, certamente não é a minha opinião a que mais importa para dizer se há, ou se não há uma cultura do estupro. Francamente, não gostaria de que uma histeria, como a descrita por Caroline, viesse a pautar as relações entre homens e mulheres. Tampouco desejo que a impunidade continue a limitar a liberdade das mulheres sobre seus próprios corpos e suas relações. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Educação na República dos Coxinhas

Alexandre Frota, com o invejável currículo de ator pornô apresenta propostas para a educação, que não por acaso, tem a sua frente 'Mendoncinha', criatura do DEM cuja experiência é o de criador de aves no interior de Pernambuco.

Alexandre, o Frota, foi levar ao 'sinistro da educação', uma proposta que pasmem, foi criada pelo 'Revoltados On Line'. Agora quem sabe, seremos o primeiro país com um modelo de educação pautado em uma página de facebook, que entre outras coisas não prima pela verdade

Esta não é uma situação à toa. Não é nenhum 'ponto fora da curva' ou acidente de percurso do governo Temer. É resultado direto da paranoia anti-comunista que se instalou no país, através de sites de desinformação. Para estes, o modelo de educação de Paulo Freire, educador reconhecido mundialmente, não serve, bom mesmo é o modelo do 'Revoltados On Line'.

Em pauta, a 'desideologização da escola'. Como se tal coisa fosse possível. Como se não tivéssemos no âmago da educação o positivismo cientificista que nos enfiam goela abaixo desde o inicio do século XX, o cristianismo católico que está na base da primeira educação dos jesuítas, o calvinismo presente em instituições de ensino anglo-saxãs instaladas no país, o liberalismo que permeia praticamente toda e qualquer instituição de ensino que tenha por objetivo 'preparar para o mercado de trabalho'. E por aí vai. Desde a disposição das carteiras, o quadro negro, o sino do recreio, TUDO É IDEOLOGIA, pois em tudo há uma visão de mundo presente e uma necessidade de 'formar' para esta visão.

Agora patético mesmo, é que a corramos o risco de ter, daqui pra frente, uma educação montada em cima de IDEOLOGIA criada a partir do rebotalho de quem nunca estudou a questão à fundo, e que apenas reproduz asneiras de uma página de facebook.

Parabéns, esse é o modelo de educação na República dos Coxinhas



domingo, 22 de maio de 2016

Governo Cunha-Temer sofre a primeira derrota

O recuo do Governo Cunha-Temer em relação à extinção do MinC é certamente, a primeira de muitas derrotas que lhes virão.
A vitória do setor artístico-cultural sobre o programa liberal-conservador de Michel Temer e Eduardo Cunha é acompanhado de forte simbolismo.
Para a parcela ‘Temer’ do governo provisório, trata-se tão somente de buscar uma governabilidade através do pacto com forças sociais que demonstraram grande capacidade de mobilização. Mobilização essa que pode levar à paralisia, ou ainda pior, expor de maneira indelével, dentro e fora do país, a sua ilegitimidade.
Contudo, é para a parcela ‘Cunha’ do governo que a derrota é mais significativa. Isto por que Cunha representa o componente mais conservador do governo interino. O fechamento do MinC foi pautado pelos setores mais reacionários do movimento evangélico. Daí ter sido comemorado por gente como Marco Feliciano e Malafaia. O fechamento do MinC, ao contrário do que querem pensar alguns setores mais liberais, não tem como objetivo ‘libertar a cultura das asas do estado’. Pelo contrário, trata-se de uma estratégia específica para fragilizar a cultura brasileira, de modo a tornar concretas as palavras proféticas do Pastor Ricardo Gondim, da Igreja Batista Betesda quando este alertou para o projeto político de um setor do movimento evangélico. Um projeto que prevê a ‘purificação’ da cultura brasileira.
‘...como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Respondo: seriam execrados como diabólicos, devassos e pervertedores dos bons costumes. Não gosto nem de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Um Brasil evangélico empobreceria, já que sobrariam as péssimas poesias do cancioneiro gospel. As rádios tocariam sem parar músicas horrorosas como  “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”. ‘
Escritas há 5 anos atrás, as palavras de Ricardo Gondim vão soando cada vez mais ‘proféticas’. Ainda não havia o risco de termos um ministério da ciência ocupado por um pastor fundamentalista, mas o pastor já havia previsto a chegada do fundamentalismo às universidades. Infelizmente, a classe científica não apresentou a mesma capacidade de mobilização popular que o setor artístico-cultural.
Creio que a clareza com que Ricardo Gondim provém em primeiro lugar da capacidade de reflexão crítica que caracteriza o protestantismo clássico e em segundo, por conhecer de dentro as razões, o leitmotiv, deste setor do movimento evangélico representado por Mafalaia e M. Feliciano.
Gondim tratou inclusive do fisiologismo da bancada evangélica.
‘Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu. Basta uma espiada no histórico de Suas Excelências da bancada evangélica nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para se apavorar. Se, ainda minoria, a bancada evangélica na Câmara Federal é campeã em faltas e em processos no STF, imagina dominando o parlamento.’
Mais profético, impossível.

Outras lutas

Mas, se aparentemente o setor cultural obteve esta vitória sobre o governo Cunha-Temer, certamente outras lutas virão.
Uma que se apresenta no horizonte é a luta pelo reconhecimento dos direitos dos povos originários: índios, quilombolas, riberirinhos.
É aí que deve se travar a luta mais acirrada, pois não tratam-se apenas de espaços simbólicos, culturais, espaços que, no caso da cultura, podem posteriormente ser ocupados ou esvaziados, pela lógica do mercado.
No caso do reconhecimento a estes povos está em disputa o próprio modelo de produção: o existir e o subsistir. É o confronto direto com o agronegócio e tudo o que ele representa: a manutenção de um modelo agro-exportador, herança colonial que ainda dá as cartas em nossa estrutura social e política.
Fato é que, o Governo Dilma, em sua necessidade de busca pela governabilidade, vinha afrontando diretamente a estes direitos. Sua saída temporária, (que poderá manter-se ou não), significou entre outras coisas, que os setores que antes pressionavam o seu governo para tomar posição favorável ao agronegócio, passaram a literalmente ‘sentar na cadeira’ da presidência. Ou seja, passaram a fazer parte diretamente do poder político que antes detinham e controlavam indiretamente.
Há um fator extremamente positivo nisso, que é o de liberar as forças populares para um confronto mais direto, a que antes se viam impedidos, ou constrangidos, já que parte importante da esquerda detinha o compromisso político de dar sustentação e governabilidade a um governo cada vez menos, ‘de esquerda’ (para eternizar esse momento, temos a fotografia de Kátia Abreu sendo ‘tietada’ pela presidente da UNE, Carina Vitral e da UBES Bárbara Melo).  
É no direito à terra e no confronto com o agronegócio que prometem-se as lutas mais duras, já que trata-se afinal da luta contra a estrutura colonial brasileira, modelo cujos interesses, o governo Cunha-Temer representa diretamente.

sábado, 21 de maio de 2016

Ode a 'Vagabundagem': do ócio criativo de Masi ao não-fazer de Dom Juan e Heidegger

Desde manhã vinha pensando em escrever uma espécie de ‘Ode à vagabundagem’. Mas... pense numa preguiça...

Desisti várias vezes. Qual é afinal a utilidade de um texto sobre a vagabundagem? A maior ‘ode’ seria não fazê-lo.

Então me recordei de uma história que ocorreu comigo há uns dez anos atrás.

Encontrei-me com um amigo, um jovem huni kuin, no centro da cidade de Cruzeiro do Sul. Ao me ver, ele exclamou:

-Nossa, você está tão magro! Andou doente?

-Não, é muito trabalho!

-E para que tanto trabalho? Você se acaba e o trabalho não se acaba! 

Aquelas palavras ficaram ‘coçando’ em minha cabeça durante anos, como uma caspa ou um piolho pelo lado de dentro do crânio.

Naquele tempo, trabalhava de manhã em uma rádio, à tarde em uma televisão e à noite, três vezes por semana, ainda dava aulas de história em um cursinho pré-vestibular.

Sentia-me bem e útil. Importante.  E as palavras do índio, simplesmente viraram do avesso meu modo de pensar.

Encontrei em sua maneira de pensar, ecos com o chamado ‘Ócio Criativo’ defendido pelo filósofo italiano Domenico de Masi.

"O homem que trabalha perde um tempo precioso" Domenico de Mais.

Filho da sociedade industrial, nasci e cresci em um bairro industrial, estudei em escolas que preparavam para o ‘mercado de trabalho’, e mesmo apesar de toda visão crítica em relação a isto, seguia reproduzindo o mesmo modelo de meus pais e avós: produzir para consumir, como um robô. Satisfação zero.

E essa forma de pensar, e agir, tão arraigada. Trabalhar, produzir, consumir. Trabalhar mais, produzir mais, consumir mais e a vida se esvaído com as areias do tempo, escorrendo por entre os dedos. Tão ‘útil’.
Domenico de Masi propõe a superação da sociedade industrial por meio de uma forma de ‘trabalho’ que confunda-se com estudo, jogo e lazer:

"O futuro pertence a quem souber libertar-se da idéia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo, enfim, com o 'ócio criativo'".

O não-fazer

Um dos conceitos mais intrigantes apresentados a Carlos Castañeda por seu mestre Dom Juan, é justamente o do não-fazer.

Dom Juan explica o fazer como um processo mental em que reproduzimos os aspectos já conhecidos da realidade. Enquanto fazemos, diz Dom Juan, não somos capazes de realmente ver a realidade. 
Estamos simplesmente dizendo para nós mesmos, através de nosso diálogo interno, que as coisas são como são porque são assim que as conhecemos.

E aí chego no ponto que queria.

Não há processo criativo possível dentro do fazer. Somente no não-fazer é possível criar.

Dom Juan descreve a realidade como pulsante e mutável. O fazer torna as coisas ‘mais simples’ para nós. È um espécie de ‘piloto automático’ da consciência que faz nos enxergar o caminho onde ele de fato nunca esteve, pois de fato, não há caminho algum.

-Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer, disse ele. ...não havia entendido o que ele queria dizer.

-Aquilo é fazer! - exclamou.

-Como?

-Isso também é fazer.

-De que é que está falando, Don Juan?

-Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você, você e eu, eu. (...)

-Tome aquela pedra por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer. Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.

-Ah, fazem, sim! - exclamou. - Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo...

-O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo mundo - disse ele. - Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente (Castaneda, 1972/2006, p. 237).

A concepção do índio mexicano Dom Juan dialoga com o filósofo alemão Heidegger:

Em sua analítica da existência, Heidegger aponta que o nosso modo predominante de ser é o estar absorvido na ocupação com as coisas. Essa "ocupação" não é para ele a mera lida objetiva com coisas previamente dadas, mas uma relação intencional, no sentido fenomenológico, de constituição de sentido. Ocupar-se com as coisas é participar de modo irrefletido da dinâmica de realização de um mundo. Nos deixamos absorver tão firmemente a essa lida ocupacional que deixamos escapar o aberto do mundo.’

É este aberto que permite o processo criativo para Heideger. Fora disso, está apenas a reprodução irrefletida, a desumanização e consequente robotização do ser humano por meio da técnica.

‘Na "era da técnica", como é denominada, por ele, a época atual, o homem toma todos os entes como recursos para os seus afazeres, como se toda a realidade se reduzisse a mera reserva de energia disponível para sua exploração e consumo (Novaes de Sá & Rodrigues, 2007).’

O músico, xamã e filósofo da cosmovisão andina, Alonso Del Rio atribui a eminência do desastre ecológico ambiental que ameaça a existência humana, ao que denomina a ‘tripla maldição’ do pensamento ocidental. Argumenta que a concepção da expulsão do paraíso, significou o sentimento de que a Terra é maldita, e portanto não é lugar de ser feliz. O trabalho, também é maldito: uma obrigação enfadonha determinada pelo deus patriarcal. Nas palavras de Alonso, o mito do gênese torna maldita também a mulher através da menstruação e as dores do parto.

Contudo, o Calvinismo, transformou o que trabalho, que na sociedade cristã medieval era simplesmente uma obrigação, em uma maneira de chegar aos céus. Afinal, a proposta calvinista que libertou a burguesia de suas amarras teológicas, é a de que riqueza é sinônimo de salvação e que portanto, o lucro, proveniente de trabalho honesto, leva aos céus.

Resta saber se a concepção de trabalho honesto se aplica aos próprios religiosos que constroem verdadeiros impérios empresariais, midiáticos e políticos com base nas doações dos fiéis, mas isso é tema para outra discussão.

Veja que o Calvinismo não libertou a concepção de trabalho como castigo, libertou somente a consciência do ‘pecado’ da ganância. O trabalho continua sendo uma obrigação, mas você pode ao menos, agora, usufruir através do consumo.

Alguém tem dúvida de que estes são os paradigmas em execução questão nos conduzindo ao cadafalso?

A questão passa a ser portanto: e o que temos para substituir este paradigma?

Talvez possam nos ajudar aqueles que foram, e são, justamente chamados de ‘vagabundos’: os índios.

Penso que não foi por acaso que aquele jovem huin kuin advertiu ‘você se acaba, e o trabalho não se acaba’. Penso que seja fruto realmente de uma concepção ancestral, de uma lida com a natureza onde o acumular não faz muito sentido.

Aliás, que sentido faria o conto infantil da ‘cigarra e a formiga’ em um lugar onde não há invernos rigorosos, e onde a escassez de um tipo de alimento, é substituído pela fartura de outro?

Nos breves períodos em que estive com os yawanawá, por exemplo, pude presenciar período de trabalho bastante intenso que movimentavam toda a comunidade, precedidos de dias de descanso, em que a presença familiar é valorizada e aspectos culturais são enfatizados. São noitadas de cantorias, são as brincadeiras, são as histórias. É o viver que em uma existência automatizada torna-se apenas consumo de lazer e entretenimento.

Bem, meu texto já vai chegando ultrapassando as 1.200 palavras. Muita coisa para quem se propôs a escrever uma ‘ode à vagadundagem’.


Por ser este um tema, praticamente inesgotável, preferia não fechá-lo em uma conclusão, como seria de praxe, mas deixá-lo em aberto como sugere Heideger, pois afinal é somente não-fazendo que é possível existir em plenitude... E criar.

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Referências:
1.Castaneda, C. (1968). A Erva do Diabo. Rio de Janeiro: Record.
2.Castaneda, C. (1974). Porta para o infinito. Rio de Janeiro: Record.
3.Castaneda, C. (2006). Viagem a Ixtlan. Rio de Janeiro: Nova Era (Original publicado em 1972).
4.Castaneda, C. (2009). Uma estranha realidade. Rio de Janeiro: Nova Era (Original publicado em 1971).
Ana Gabriela Rebelo dos SantosI; Roberto Novaes de SáII
IGraduada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense / Bolsista REUNI (UFF) e Arteterapeuta integrante da equipe da Clínica Pomar no Rio de Janeiro. Email: anagabrielarebelo@gmail.com
IIProfessor Associado da Universidade Federal Fluminense, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFF. Endereço Institucional: Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Departamento de Psicologia. Campus Gragoatá, bl. O, sala 218 (São Domingos). CEP 24210-350, Niterói (RJ). Email: roberto_novaes@terra.com.br