domingo, 19 de fevereiro de 2017

Morre Emiliano Dias Linhares, o Xamã ‘Gideon dos Lakotas’

Uma nota divulgada na página do facebook oficial do Céu de Nossa Senhora da Conceição confirma o falecimento de Emiliano Dias Linhares, conhecido como Gideon dos Lakotas.

O site oficial não traz maiores informações, apenas que a passagem se deu durante a madrugada, e que seu corpo seria cremado. Segundo a página, as homenagens serão prestadas durante o próximo sábado durante o retiro de carnaval no Céu Nossa Senhora da Conceição, onde Gideon era padrinho, em Cananéia São Paulo.

Até o momento não há informações públicas sobre a causa do óbito de Gideon, que tinha 53 anos.

A atuação de Gideon como líder religioso foi marcada por diversas polêmicas, a começar pelo uso do nome ‘Lakota’, que foi contestada pelos indígenas norte-americanos. Gideon também deu início a uma série de acusações contra o CEFLURIS, uma das principais linhas do Santo Daime, através do seu livro “Santo Daime Revelado”. 

Chegou a ser investigado pela morte da esposa, assassinada por criminosos em uma rodovia do estado de São Paulo. A investigação foi arquivada por falta de provas.

O blog Terra Náuas deixa registrada suas condolências aos familiares, amigos e discípulos de Gideon. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Apu Auzangate e a dimensão material do sagrado

Auzangate: 6384 mts de altitude
É a segunda vez que cruzo os Andes naquela altura. Na primeira em 2009, realizei a façanha em uma moto 125 cilindradas. Acima de 4 mil metros de altura ela mais fazia barulho do que andava. Poderia ter escrito um artigo sobre como cruzar os andes em um barbeador elétrico, já que era o que sugeria o som do motor: um barbeador elétrico. O pouco oxigênio das alturas afeta drasticamente o rendimento dos motores. 
Aliás, não apenas os motores, mas de toda a vida. Naquela ocasião tive de fazer a subida em duas etapas. Uma parada em Marcapata, onde me assombrei com a história de condores atados nas costas de touros: costume andino que desconhecia e que estava representado em uma estátua de bronze de bronze na praça da cidade.

Recordo-me do clima aconchegante de uma pensão, onde moradores locais conversam animadamente em quétchua. Um deles, um jovem médico, tenta me fazer entender a formação das cadeias de montanha. É inútil. Meus conhecimentos geográficos não são suficientes para compreender as cadeias de montanhas, seus meandros e sobretudo, o significado para aquela gente.

Mas eles também ficam surpresos e estupefatos quando lhes digo que tanto o Madre de Dios, que corre pela face ocidental da montanha, inicialmente com o nome de Iñambari, quanto o Vilcambamba, que nasce na mesma cadeira de montanhas e corre no sentido contrário pela face oriental, unem-se novamente a quilômetros dali, quando o rio Madeira encontra o Amazonas. Olham-me com uma certa perplexidade. Era como se para aquele povo a proeza das águas contornarem o incontornável Auzangate fosse impossível. Ali a geografia era uma questão de sentir na pele da face, nos músculos das pernas e no ar dos pulmões, e em seus corpos eram marcados pela grandeza do Auzangate. Os rios serpenteantes das infindáveis planícies da Amazônia não fazem parte desta realidade.

A vantagem de subir em duas etapas, foi o tempo necessário para uma adaptação à altitude. Quando cheguei à Abra Piurani, a 4237 mts, não senti absolutamente nada além do frio, com a proverbial ajuda, é claro, das folhas de coca.

À minha frente, este ele, o Auzangate: um trono celestial que se ergue em direção ao firmamento, impondo à geografia, sua condição divina. Talvez por isso, haja tantas oferendas na margem da estrada. A maioria são montículos de pedra em que são depositadas folhas de coca, mas há também algumas de bebida e retalhos de lã colorida.

Intuitivamente, faço o mesmo, e oferto ao Auzangate um punhado de folhas de coca, arrumadas em um montículo de pedras. Uma singela homenagem ao gigante cujo olhar das alturas, é inescapável.

Desta vez estou com um equipamento melhor. Minha moto tem 250 cc e injeção eletrônica, o que significa uma capacidade de auto regulagem. Com isso, a moto perde pouca potência e a subida acontece de uma única vez. Mas, desta vez quem sentiu fui eu. Faltando alguns quilômetros para o ‘abra’, sou tomado de uma vertigem, como quem olha para baixo do alto de um arranha céu. 
Concentro-me, e depois de serpentear cuidadosamente, e sem nenhuma pressa pela estrada, finalmente consigo chegar ao ‘abra’, já totalmente consciente que é o poder do Auzangate que rege minha sorte.

Desço da moto e apesar da belíssima paisagem, nem sequer penso em selfie. Quero mesmo é me por de joelhos aos pés do Auzangate, agradecer por ter chegado até ali, e pedir proteção para o seguimento da viagem. Me vem a memória um velho amigo, o acreano de origem libanesa Gamal Murad. Tão apaixonado quanto eu por aquela montanhas, Gamal sofreu um acidente fatal naquelas altitudes, no final do último ano. A lembrança de que era um responsável motorista e experiente naquelas estradas, somente reforça meu temor de percorrê-las.

Dou poucos passos e a vertigem me domina por completo. Faço uma pequena oferenda de folhas de coca, pedindo ao Auzangate que me permita ir e voltar daquela viagem. Substituo a coca já mascada por um novo chumaço e quando vou subir na moto, sinto um quase desmaio. Aí para frente vem a descida, o que torna este trecho especialmente mais perigoso. A moto morre e não consigo dar na partida novamente. Sou obrigado a deixar que pegue um embalo na descida.

Olho par os lados. Nenhum caminhão. E deixo que a montanha faça o trabalho que minhas pernas, naquelas condições, jamais poderiam. Felizmente, não é preciso muita descida e ela logo pega no tranco.

Vou serpenteando montanha abaixo com atenção redobrada. Se a face ocidental dos andes estava relativamente quente e seca, a face oriental incrivelmente está fria. O degelo dos andes parecem acentuar a sensação térmica do frio. Mas o frio intenso também permite sentir a radiação solar das paredes das montanhas. Aquele SENTIR me traz algo de devoção, análogo talvez ao que um fiel sinta durante um culto em sua igreja. Ali está a maior de todas as catedrais, com paredes de rochas, vitrais de gelo e fontes de cristalina, aquecidas e iluminadas pelo Sol no firmamento.

Penso que estou tendo ali, um vislumbre do que possa ser a cosmovisão andina: um sentido de devoção não voltado ao abstrato, mas às coisas materiais e concretas que determinam nossas vidas. Por isso talvez, o epíteto APU Auzangate – Senhor Auzangate. São senhores absolutos da vida ali afinal, a montanha, e o Sol.

E como vivem afinal, naquelas altitudes, aquele povo de face rosada, queimada pelo Sol, pastoreando suas lhamas, em casas feitas de rocha e adobe. Sabem melhor que ninguém quem são os senhores que ensinam a viver em condições tão extremas.

A indicação de uma pequena parada ‘caldo de cordeiro’, parece promissora. E de fato é. O caldo e um chá de coca e um pouco de maca me põem de pé novamente. Mas eu, o garoto tropical, cometo a burrice de deixar o capacete no espelho da moto. Ao vesti-lo novamente me dou conta da burrada: havia se convertido em um bloco de gelo. O resultado do frio agudo sobre as têmporas é uma persistente dor de cabeça. Mais à frente vem chuva. ‘É só um sereno’, penso eu, mas o ‘sereno’ ainda que não se compare com as chuvas torrenciais com que me acostumei na Amazônia, traz um frio que penetra até os ossos. As luvas já não adiantam de muita coisa e minhas mãos estão dormentes. Nas pernas, anuncio de câimbras. E na alma o medo de que a falta de sensibilidade me leve a um acidente.

Paro a moto e urino sobre minhas mãos: um jeito estranho, mas eficaz de trazer de volta a sensibilidade perdida com o frio.

Serpenteio a estrada até o seu fim em Urcos e depois em uma quase reta até Cuzco.
Já depois de um banho e aquecido sob cobertores, as redes sociais trazem notícias sobre minha cidade, Cruzeiro do Sul, enfrentando uma alagação sem precedentes históricos.

“O Juruá é nosso APU’, penso eu, em uma improvável adaptação amazônica da cosmovisão andina. 
rio Juruá


Mas aqui é ele afinal, quem determina nossa vida. Suas infindáveis curvas, serpenteando amazônia adentro é que dizem como devemos viver por estas bandas. Se há terra para habitar, é por que o rio assim permite. Se a serpente se mexe -e ela se mexe - águas e terras cambiam seus lugares e somos nós, e não Ele, o APU Juruá, que tem de se adaptar.

“Não faz sentido essa divisão entre material e espiritual. Essa é uma divisão da mente do homem branco, do europeu, do dito civilizado, que precisa voltar sua devoção ao abstrato, para se livrar do sentimento de culpa de quem profana o mundo que habita”.


Tais palavras me foram ditas por um ‘Amauta’ (sábio) andino, anos atrás e encontram eco, nas palavras de Ailton Krenak: “O sagrado está no olhar de quem vê, e quem vê uma montanha apenas como uma pilha de minérios a serem transformados em quinquilharias, certamente não pode, ou não consegue, ver a dimensão sagrada de tudo que nos cerca.”  

domingo, 12 de fevereiro de 2017

‘Ah, Kambô Kambô Ho!’: Uma cerimônia de ayahuasca me mostrou os possíveis riscos da medicina

Há anos era a mesma coisa: durante as cerimônias de ayahuasca, sentia uma forte impaciência, que me levava a cantar, balançar o maracá, ou me agitar de qualquer maneira, antes mesmo da manifestação plena da miração.

No dia-a-dia, uma coisa me perturbava imensamente: ao por exemplo procurar uma chave, um isqueiro ou um documento que fosse, meu coração começava a se agitar e era tomado de um desconforto muito grande. ‘Bem, isso sou eu, mas é também algo mais’, pensava.

Minha intuição me levou a buscar, do outro lado da fronteira, o conhecimento do povo Shipibo. Com população estimada em mais 20 mil pessoas (alguns relatórios falam em até 35 mil), em cerca de 140 comunidades é o grupo Pano mais numeroso. Em muito sua cultura se assemelha com os grupos pano do Acre, mas por terem se estabelecidos nas margens de um grande rio como o Ucayalli, ao invés de zonas interfluviais como os grupos Pano no Acre, sua cultura ganhou os contornos de uma cultura difundida por uma extensa zona.

Na verdade, ao visitar os Shipibo, tenho a sensação de que deve ter havido no passado algo como uma civilização Pano a qual pertenceram povos dos lados da fronteira, criada séculos depois, pelo homem branco. Inclusive consta em um mapa etnográfico do padre Tastevin a identificação de grupos Shipibo na região do Juruá no século XIX. Com diferenças mas também muitos elementos culturais em comum, esses povos por vezes tiveram também seus conflitos, talvez de modo análogo com que guerreavam as cidade-estados da Grécia Antiga, mas ainda assim, compartilhando suas crenças e visões de mundo, mitologias e sistemas de conhecimento.

Acredito ser por conta de sua predominância numérica ou talvez mais ainda pelo intenso contato com outros povos, que o sistema de conhecimentos tradicionais dos Shipibo tenha se desenvolvido a um nível prático ao ponto de seus curandeiros não serem vistos pela população local apenas como um exotismo. Trata-se de medicina popular, a qual recorrem pessoas de Pucallpa, Lima e Cusco, por exemplo. Quiçá os curandeiros Chipináguas, descritos pelos cronistas incaicos, já não percorriam as altitudes realizando atendimentos ainda durante o Império Inca. Se do lado brasileiro, a colonização branca forçou os povos indígenas a um isolamento entre si, o fluxo de conhecimento entre diferentes culturas e pisos ecológicos parece ter sido uma constante dentro da lógica do Tawantinsuyo.

Esses sistema utiliza um sem-número de plantas medicinais. Mas o kambô, medicina de origem animal, não é uma delas.

Meu contato foi com um jovem Xamã, ou nas palavras dele, Curandeiro. Diego tem apenas 31 anos, mas nasceu imerso dentro da cultura do curandeirismo vegetalista, e tem se dedicado ao aprendizado há doze anos.

Diego dizia-me que eu não necessitava de longas dietas, que eu já as tinha e que seria apenas caso de ‘arreglar-las’ e ‘endereçá-las’, pois estavam como que emaranhadas em um ‘bolão’.
Sendo assim, dirigi-me à comunidade Vista Alegre no rio Paichitea, afluente do Ucaially, para uma curta dieta de dez dias.

Deu início ao tratamento com o ‘Chumpá’ (não confundir com o chumpê – floripôndio). Trata-se  um cipó de odor semelhante ao cravo . Nos dias subsequentes, foi administrado o ‘Ajo Sacha’ (‘Alho em folha’, em uma tradução aproximada) e a Guayusa (também uma folha perfumada, de limpeza). A cada dieta, na noite seguinte, Diego conduzia uma cerimônia de ayahuasca, onde as plantas são ‘icaradas’, ou seja, canta-se para que suas propriedades manifestem-se como medicina no corpo do paciente.

Na terceira cerimônia, senti muito fortemente, uma palpitação no coração que foi se intensificando até o ponto em que mal conseguia respirar. Foi quando me dei conta, de que aquele efeito não era da ayahuasca que havia tomado, mas reproduzia ou emulava o efeito do kambô.

Aquilo deveras me surpreendeu. A última vez que tomara Kambô fora há cerca de três anos, com um pajé katukina. Contudo, a miração não me conduzia a esta ocasião, mas há cerca de 18 anos atrás, tempo de minha chegada à Amazônia, quando fiz um uso bastante frequente da medicina, por cerca de um ano. A miração mostrava-me que o uso continuado, sem as adequadas dietas e resguardos, resultaram em um efeito descontrolado, que permanecia em níveis muito internos do corpo.

Tive a sensação de que alguma das válvulas de meu coração estava dilatada em relação às demais, o que causava uma sensação de coração inchado e trazia uma sufocamento. Em alguns momentos parecia que o coração iria explodir. O que assustava era que aquele efeito não se dava durante uma aplicação de kambô, mas em uma cerimônia de ayahuasca, muitos anos depois. Ou seja, havia um efeito residual, que permanecia no corpo.   

Comuniquei a sensação a Diego que passou a ‘icarar’ o kambô. Dizia-me que estava como veneno, e que estava a convertendo para medicina.

Na mesma hora, me veio aquele velho postulado de que a diferença entre um veneno e o remédio é a dose. Mais do que apenas a dosagem, as dietas e resguardos subsequentes são essenciais para que uma substância possa ter efeito positivo e não negativo, no corpo. Mais ainda quando se trata de uma substância da potência do kambô. Dentro de sistema de conhecimento Shipibo, uma substância só torna-se medicina quando ‘icarada’, ou seja, quando se canta para essa medicina, e simultaneamente também para o corpo do paciente. Dentro dessa visão somente assim é desperto seu potencial curativo e pode trazer benefício. 

Não por acaso, o pajé katukina que me aplicou a medicina cantou o equivalente 'ícaro' do Kambô: 'Ah!, Kambô, Kambô Ho...' 

Pensei também, ser muito improvável que a própria substância em si, pudesse ainda estar em meu corpo 18 anos depois. Ou mesmo três. Mas isso somente testes poderiam identificar. O que a miração mostrava-me era se tratar muito mais de uma memória específica do efeito, guardado em receptores neurais no corpo, que sob condições específicas poderiam ser acionados e se manifestar, ainda que em níveis internos estivesse sempre presente. Pensei também que nem tudo poderia ser atribuído ao kambô, mas à minha própria estrutura psíquica, com o kambô atuando sobre ela.

Não quero com esse texto contribuir para uma ‘negativação‘ do kambô. Centenas de pessoas relatam melhoras em suas condições de saúde que variam desde gastrites até dores crônicas.

Destaco também que o que foi apontado pela miração foi que minha própria imprudência, por ter tomado kambô seguidamente e segundo minha própria vontade por pessoas talvez tenha sido a causa desse efeito. Tampouco cumpri resguardos que considero necessários. Isento de qualquer responsabilidade as pessoas que me aplicaram o kambô nesse período e a assumo completamente.

Outro ponto que vale mencionar também é que a vida de um índio na floresta já é, em si, uma ‘formação’. Longas caminhadas na mata, sol e atividades físicas intensas desde a mais tenra idade, mudanças bruscas de temperatura e mais uma série de outras especificidades da vida indígena que suponho, tenham efeito sobre questões como pressão sanguínea, pulsação e a ‘calibragem’ das veias.

Vejo-me compelido a escrever este relato pessoal, movido principalmente pelo senso de responsabilidade. Meu TCC de graduação em jornalismo foi sobre a expansão do uso do kambô nos centros urbanos do país, que naquele tempo vinha começando a ser popularizado  entre a população não-indígena. Então de certo modo, fui também um dos responsáveis pela sua difusão. Somente por esta razão que considero meu dever compartilhar essa experiência pessoal como forma de alerta.

Hoje, com a medicina difundida não apenas no Brasil, mas já em todo continente, EUA e Europa, e com o relato de pelo menos duas mortes por efeito direto ou indireto do uso de kambô, acho prudente, e necessário, apontar possíveis riscos para o seu uso indiscriminado.

Pesquisas científicas sugerem a eficácia do kambô para o fortalecimento do sistema imunológico, entre outras coisas, o que significa que vale a pena continuar os estudos. Para quem busca a medicina em sua forma tradicional, vale também saber de possíveis resguardos e restrições, quantidade, frequência e etc. Sobretudo, respeitar os próprios limites do corpo, muitas vezes acostumado à vida mais ou menos sedentária das cidades.

O Kambô, é uma medicina forte e sagrada que pode inclusive, sem dúvida, salvar vidas, e justamente por essa razão deve ser tratada com o respeito que merece.

PS: Quanto ao trabalho dentro do conhecimento Shipibo com a ayahuasca, deu resultado: na cerimônia seguinte, não tive mais aquele efeito, e posteriormente não senti mais a impaciência e palpitação descontrolada de antes.


Imagem: site Herpetofauna

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Agronegócio não sobreviveria sem produtos de origem indígena

Contextualizando: a apresentadora do programa ‘Sucesso no Campo’, Fabélia Oliveira afirma que se os índios querem preservar sua cultura deveriam parar de usar geladeira e morrerem de malária e tétano. A declaração polêmica faz parte de uma série de reações do setor do agronegócio ao samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense  que neste ano, homenageia a resistência dos xinguanos à usina de Belo Monte e ao agronegócio.
Se a opinião externada pela apresentadora fosse algo restrito ao setor do agronegócio, não seria tão preocupante, mas essa é certamente a opinião de boa parte da sociedade brasileira, que infelizmente, desconhece os processos históricos que levaram a sua própria formação.

Remédio da Malária: descoberta indígena

A tese da apresentadora é de que o remédio para a malária seria uma descoberta ‘do homem branco’ e portanto de uso exclusivo destes e daqueles que, não sendo brancos, submetem-se  às vontades e desejos do colonizador para ter direito a tais benefícios. Aos demais estaria reservada uma honrosa morte.
Nada mais equivocado. A malária não existia nas Américas.Foi introduzida pelos colonizadores. Credita-se ao povo Napo Runa e aos seus métodos tradicionais de diagnósticoe profilaxia de doenças a descoberta do uso do quinino presente em cascas e cipós como a quina-quina para o tratamento da malária.

O Napo Runa descobriram mais de mil plantas medicinais, algumas em combinações complexas, e descobriram a maioria deles em um tempo muito curto, em apenas um século ou mais de a introdução de doenças europeias. Na verdade, embora o mundo já tenha conhecido a malária há milhares de anos (foi descrito na China em 2700 aC), e não tinha remédio para ele, dentro de 25 anos da introdução da malária na Amazônia, o primeiro medicamento para a malária, o quinino, extraído de uma planta, foi descoberto pelos povos indígenas no Equador.’ Gayle Higpine, etnobotânica
O atual tratamento: cloroquina, primaquina, mefloquina, foi um aperfeiçoamento de laboratório de um tratamento tradicional. Também não são poucos os medicamentos que hoje fazem parte da farmacopéia  ocidental que tiveram origem no conhecimento tradicional.
Dito isso, vamos agora aos produtos utilizados pelo agronegócio que foram antes domesticados pelos povos indígenas das américas.

Milho, Batata, Tomate e Cacau

A lista de plantas conhecidas e domesticadas por povos indígenas e que hoje fazem parte de nossa alimentação diária é tão grande, que sobraria pouca coisa se fossemos aplicar a ‘regra de ouro’ da apresentadora.

O milho, tão importante para o agronegócio certamente encabeçaria a lista. Presente em centenas de produtos industrializados, o milho cuja safra supera as 200 mil toneladas é um produto de origem 100% indígena, cultivado em dezenas de diferentes espécies nas três Américas.
Segue na lista, a batata. Cultivada nos Andes por milênios, salvou milhões de europeus de crises famélicas e é hoje importante produto não apenas para o agronegócio, mas para a alimentação praticamente no mundo todo.

Podemos lembrar ainda da brasileiríssima mandioca, domesticada pelos povos indígenas e presente seja in natura ou através dos derivados: farinha e a goma (fécula), com que se fazem biscoitos e tapioca.

Do mesmo modo, o tomate, outro importante produto do nosso dia-a-dia, é também um produto de origem ameríndia. Ou seja, para fazer valer sua regra, Fabíola pode dar adeus ao molho de tomate na pizza e na macarronada.

O chocolate foi uma invenção europeia ao acrescentar leite à massa de cacau, que já era cultivado, processado e consumido milenarmente por povos indígenas da Amazônia e da América central.
À essa lista acrescentaria ainda o mate, tão utilizado pelo ‘homem do campo’ do Brasil Central como estimulante seja na forma de tereré gelado ou do chimarrão quente. O mate é indígena também.  
Entre as frutas temos o abacaxi, o maracujá, o cupuaçu, o açaí, a goiaba e outras dezenas de produtos que importantes ao setor agrícola nacional.

Há ainda o guaraná, estimulante conhecido originalmente dos índios da amazônia, e poderíamos acrescentar na lista até a coca-cola, já que que a coca é de origem ameríndia. E o pequi, fruto símbolo de Goiás, terra do agronegócio, advinha quem já o conhecia a ensinou aos recém-chegados na terra?

Até mesmo o adoçante Stevia, presente em refrigerantes diet, é também um legado do conhecimento indígena sobre a terra que ocupam, habitam, vivem e produzem há pelo menos cinco mil anos.  

sábado, 17 de dezembro de 2016

Multiculturalismo é civilizatório, Etnocentrismo é tribal

Somos híbridos. E isso é um fato. Ao tentar delimitar as fronteiras do que seria a ‘civilização ocidental’ nos deparamos com inúmeros e insolventes problemas. Podemos começar traçando a origem de nossa civilização ocidental na Grécia Antiga. Mas como negar nesta, por exemplo, a influência da primordial, e africana, civilização egípcia?
Quantos amálgamas foram necessários, para que os antigos gregos, absorvessem, via mediterrâneo, influências egípcias, cretenses, fenícias, mesopotâmicas?
Imaginem nosso ‘civilização ocidental’ sem os números indo-arábicos? Teríamos avançado tanto no campo da engenharia, sem a contribuição dos árabes? Que mais? Medicina. O que seria da medicina sem Avicena. O que seria da filosofia ‘ocidental’, sem Averróis e os tradutores moçárabes?
Como ibéricos, deveríamos compreender melhor do que ninguém o sentido de sermos híbridos: celtas, ibéricos, romanos, germânicos (visigodos e suevos), iranianos (alanos), moçárabes do norte da África, judeus, ciganos. A mais ocidental das penínsulas europeias é também a mais mestiça. Já chegamos à América bastante misturados, e continuamos nos misturando. Seria possível definir a cultura, ou a ‘civilização’ em que estamos inseridos descartando estas contribuições?
Somos uma civilização ocidental fundamentada em cima de uma religião oriental. O Cristianismo é sobretudo oriental, latinizou-se, é verdade, mas é possível pensar o cristianismo sem a influência decisiva do Zoroastrismo. A antiga religião persa foi quem nos legou o maniqueísmo de um mundo dividido entre bem e mal. Ainda que se questione se tal legado é antes benção, ou maldição, o fato é que a concepção surgiu na Pérsia, atual Irã. Antes a ética era fundamentalmente tribal e as noções de bem e mal estavam associadas ao ethos local.
O Judaísmo, esse sim, o supra-sumo do etnocentrismo elevado à condição divina. Ocidental? Talvez. Mas esse sem dúvida é um traço excludente que permeia nossa civilização. Nós, e os outros.
Judaíco-Cristã, greco-romano. É o que define ‘civilização ocidental’, ainda que seus pilares tenham surgido no oriente, próximo, médio ou até distante. Há quem alegue a influência do budismo, por exemplo, em concepções filosóficas ‘ocidentais’ posteriores.
Mas quem somos ‘nós’ e quem são os ‘outros’? A divisão parece ser muito mais fruto de nossa própria vontade de nos diferenciar do que de algum dado real ou concreto. O expediente vem de longa data. Os gregos se diferenciavam dos ‘bárbaros’: todos aqueles que não falam grego (os romanos eram a princípio ‘bárbaros’ para os gregos). Os judeus falam dos ‘gentios’, a ‘gentalha’ que não foi escolhida para ser salva.
Recentemente, li no face, uma postagem que juntava índios, negros e islâmicos numa mesma panela. Eram os ‘outros’, capazes de aberrações inomináveis como por exemplo, a mutilação genital. Contra eles, deveríamos estar vigilantes, a fim de manter nossa civilização a salvo.
A mutilação genital acontece em mulheres em algumas tribos da África, e definitivamente, não é um ‘valor’ que parece ter a capacidade de ser absorvido, ou adquirido, pela nossa civilização.
O apelo de vigilância contra o multiculturalismo parte de Olavo de Carvalho, o mesmo que tem procurado relativizar as torturas e mortes da inquisição. Para Olavo, teria sido apenas um ‘complô’ dos protestantes a fim de desacreditar a igreja católica. Segundo Olavo, as mortes na fogueira foram bem menos cruéis do que se imagina, já que as vítimas morriam asfixiadas e não queimadas. Que alivio!
O que será que Olavo diria das teses do antropólogo mexicano Frank Díaz, de que na verdade, os relatos de sacrifícios humanos na América seriam apenas invenções da igreja católica para justificar a tomada de terras?
O que pode ser mais etnocêntrico do que justificar as atrocidades de sua própria ‘civilização’? Um comportamento bastante ‘tribal’ eu diria.
Ao fim, o que define ‘nós’ dos ‘outros’, parece muito mais ser explicável em termos de medos irracionais do que por parâmetros objetivos.

Somos híbridos, e quando for pensar no assunto das chamadas ‘trocas culturais’ que tanto assustam a Olavo e seus seguidores, prefiro pensar não nas mutilações genitais, mas por exemplo, em uma técnica ancestral de tecidos de povos andinos na Bolívia que estão sendo utilizadas para reparar danos cardíacos.

domingo, 23 de outubro de 2016

A Ayahuasca e o Dia de Ação de Graças

Todos nós estamos de certo modo familiarizados, com a comemoração protestante do Dia de Ação de Graças. Mesmo em terras brasileiras, onde a comemoração faz pouco, ou nenhum sentido, os ventos do norte nos trazem a ideia de uma comemoração onde todos familiares se reúnem ao redor de uma mesa farta, e em um gesto de reconciliação e agradecimento, comem o famoso peru, juntamente com outras iguarias.

A data é tão importante para a o espírito nacional dos EUA que igrejas protestantes a eles ligadas, buscam implantar a data por aqui também.

Oficialmente, comemora-se o dia em que um grupo de colonos famélicos teve seu pedido de oração atendido, trazendo uma colheita farta e permitindo assim, a sua subsistência. Um sinal de que ‘deus’ estaria a favor dos cristãos, intervindo para que esta terra viesse a ser evangelizada.

Nas igrejas batistas, não há uma linha sequer para contar a história da índia Pocahontas, que enamorada de um dos colonos, persuadiu parte de sua tribo, a suprir os colonos com alimento nativo em abundância. Entre os alimentos, estava o peru, ate então desconhecido dos colonos.

A história termina, é claro, com os índios assassinados, Pocahontas convertida ao cristianismo e morta em um navio a caminho da Inglaterra, e é claro: os colonos cristãos agradecendo ao seu deus estrangeiro por tamanha benevolência.

E continuamos, é claro, a comer peru, milho, tomate, feijão, batata, chocolate, guaraná, maracujá, tabaco e mais uma extensa lista de produtos oriundos não apenas da Terra América, mas efetivamente domesticados pelos povos nativos durante gerações.

Nesse sentido, fica mais fácil perceber que o processo de apropriação da ayahuasca pela sociedade e religião do homem branco, não é caso isolado, mas apenas mais uma na lista de tantas outras plantas e conhecimentos apropriados desde o início da colonização.

Por diferentes meios, as religiões declaram por meio de revelação que mais uma vez, ‘deus’ lega o conhecimento aos brancos. E para quem tem ‘deus’, que importância teriam os ‘índios’?
Felizmente para muitos adeptos das religiões ayahuasqueiras não é assim. Não é raro que sejam retratados como guardiões deste conhecimento milenar. Afinal se foi a vontade de ‘deus’ que tenha trazido a medicina para a terra, ele a fez na Amazônia e colocou nas mãos dos povos originários. Menosprezar esse fato HISTÓRICO, além de desrespeito, é uma negação da própria realidade.
Antes de seguir adiante explico o porque de grafar ‘deus’, com minúsculo e entre aspas. Afinal, de que ‘deus’ estamos falando? Estamos falando do deus judaico-cristão bíblico? Aquele do Oriente Médio não deixou uma linha sobre a ayahuasca. Estamos falando de um conceito de bondade universal? Do sentido de uma supra-consciência? O que é afinal, ‘deus’, para os povos que comungam a ayahuasca desde tempos imemoriais?


Se não formos capazes de responder a essas perguntas, a ayahuasca talvez seja retratada no futuro como mais um ‘peru de natal’: um presente ‘divino’, sem relação com os povos guardiões deste conhecimento.

Carta aberta dos Povos indígenas do Acre sobre Conferência Mundial da Ayahuasca

22 de Outubro de 2016

CARTA ABERTA DOS POVOS INDÍGENAS DO ACRE – BRASIL À CONFERÊNCIA MUNDIAL DA AYAHUASCA (nixi pae, huni pae, uni pae, kamarãbi, kamalanbi, shuri, yajé, kaapi…)

Nós, abaixo-assinados, presentes nesta Conferência, pertencentes aos povos indígenas Yawanawa, Shanenawa, Jaminawa, Huni kui, Apurinã, Manchinery, Katukina, Nukini, Puyanawa, Ashaninka, Madja, Jamamadi, Nawa, Shawãdawa, Apolima-Arara, Jaminawa-Arara e Kuntawa, presentes no Estado do Acre e Sul do Amazonas desde nossas ancestralidades, somos 17 povos indígenas de 36 terras indígenas reconhecidas pelo governo federal, falantes das línguas Pano, Aruak e Arawa, perfazendo uma população estimada em 23.000 indígenas, os quais estão distribuídos em aproximadamente 230 aldeias. Vale lembrar que tais terras estão situadas em 11 dos 22 municípios acrianos.


A II WORLD AYAHUASCA CONFERENCE foi realizada na cidade de Rio Branco-AC entre os dias 17 a 21 de outubro de 2016, tendo como objetivo maior: “promover um espaço de diálogo, partilha e aprendizagem, sinergia e colaboração, no respeito pela diversidade cultural das tradições da ayahuasca”.

Isso ficou evidente a partir do momento em que se constituiu a primeira Mesa, na qual já ficou perceptível qual seria o tom geral do Evento. Nesse primeiro momento, já se verificou que não seria dada condição de amplo debate e participação dos indígenas, tanto dos palestrantes, como da plenária, e percebeu-se que seria este o tom geral da Conferência.

Assim sendo, vimos manifestar nossa insatisfação para com as questões a seguir:

A I Conferência Internacional, que aconteceu em Ibiza, na Espanha, não contou com a participação ampla dos povos indígenas que são os verdadeiros detentores desse conhecimento, posto que na mesma estiveram presentes apenas dois Huni Kui.
Não foi repassado aos povos indígenas nenhuma informação oficial das discussões realizadas nesta primeira Conferência, nem dos encaminhamentos procedidos na ocasião.
Acreditamos ser questionável o próprio nome dado ao evento, “Conferência da Ayahuasca”, uma vez que ele é genérico, e não contempla as diferentes designações dadas por cada povo. Note-se que, um nome, não é apenas “o nome”, uma vez que a ele estão atrelados conceitos simbólicos de suma importância cultural e espiritual para cada um dos povos que faz uso dessa bebida. E bom lembrar também que não estamos conferindo nada acordado anteriormente com qualquer povo indígena.
Ainda que este evento conte com maior número de participantes indígenas, não estamos nos sentindo realmente parte de sua criação e organização.
O formato das mesas também não nos contempla, uma vez que a duração dessas mesas não dá espaço para o debate necessário. Não houve tempo para os palestrantes expressar o que haviam se preparado para dizer, nem houve tempo para debater. Entendemos que o formato do evento é ‘acadêmico’, mas acreditamos que o evento deveria ter compreendido que a maior parte dos participantes não são oriundos do meio acadêmico, e, sequer o assunto da conferência é acadêmico, visto que a Ayahuasca não se restringe a um tema científico, mas fala de identidade, saber, ritual, sacralidade, cultura, vivências e práticas milenares. E entendemos que a Academia deveria considerar e contemplar essas especificidades, e não impor o seu formato.
Nós indígenas não fomos convidados a participar de muitas das mesas, a despeito do fato de que os temas debatidos eram de interesse dos indígenas.
As mesas estão acontecendo de maneira simultânea, o que impede a participação ampla das pessoas, que precisam escolher qual das palestras assistir.
Encaminhamentos

Por meio de um diálogo majoritariamente indígena, nós participantes desta Conferência não tomaremos nenhuma decisão relacionado aos assuntos abordados neste evento, sobretudo, aqueles de caráter mais relevante, sem antes de:

a) promover a realização de encontros indígenas em que se faça presente todos os detentores do conhecimento das plantas (cipó e a folha) com as quais se prepara a bebida sagrada que está sendo chamada de Ayahuasca, com a presença das instituições responsáveis e envolvidas na discussão de patrimonialização.


b) discutir melhor o assunto sobre patrimonialização, pois durante sua abordagem fragmentada ocorrida na conferência, não ficou claro para os povos indígenas o que significa isso na sua essência.


c) fazer um Grupo Técnico (GT) sob a coordenação e orientação dos indígenas para a realização de consultas em respeito aos detentores do conhecimento sobre a Ayahuasca e ao Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004, que diz que o Brasil deve respeitar a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, e consultar as comunidades indígenas antes das obras (prévia), da forma que as próprias comunidades escolherem para ser consultadas (livre) e ainda tem que levar todas as informações que existem sobre o empreendimento (informada).


d) constituir um conselho ético para discutir o assunto da origem e definir critérios sobre o uso e a patrimonialização da Ayahuasca, e a partir dessa perspectiva e entendimento, realizar reuniões com as igrejas e demais segmentos que utilizam essa bebida sagrada, diante disso, poderemos apresentar nossa posição sobre os assuntos.


e) Requeremos a garantia de participação dos povos indígenas dos demais estados brasileiros que fazem uso da bebida sagrada na discussão sobre a patrimonialização;


f) Requeremos, ainda, o direito de deliberação, participação e planejamento do que acontecerá nas próximas Conferências Mundiais da Ayahuasca, a partir da próxima que está previsto a realizar-se em Tóquio no Japão. Requeremos também a participação igualitária em todas as mesas de debate no âmbito do evento;


g) Requeremos, por fim, que as Conferências Mundiais da Ayahuasca e os órgãos públicos e privados que discutem o tema reconheçam as tradições de uso, de cura e de preparo dos líderes espirituais dos povos indígenas.


Por fim, reafirmamos que estamos dispostos a colaborar em todos os processos para os avanços das discussões para o uso e o Direito da consagração da bebida por toda a humanidade.

Rio Branco, Acre, 21 de outubro de 2016.

O Acre não é Ibiza

Em Cruzeiro do Sul chegam notícias da II Conferência Internacional da Ayahuasca que acontece em Rio Branco-AC entre os dias 17 e 22 de outubro.
O primeiro encontro foi há dois anos em Ibiza na Espanha, quando então os organizadores chegaram a declarar que Ibiza teria se tornado a ‘capital mundial da ayahuasca’. Naquela ocasião, o caráter do encontro parece ter assumido uma forma ‘new age’, na turística ilha dos prazeres, das praias de nudismo e das boates embaladas ao som tecno.
Desde aquela ocasião, já percebeu-se a necessidade de realizar este encontro em terras amazônicas, região de origem da medicina.
O encontro no Acre, contempla a terra de origem das chamadas religiões ayahuasqueiras. Ao menos duas delas tem sua origem na capital acreana: o Santo Daime, em sua diferentes vertentes, e a Barquinha. Já a UDV tem sua origem em Porto Velho-RO.
Mas a maior surpresa, ou talvez, não tão surpresa assim, esteja sendo a participação das lideranças indígenas do Acre.
É justamente aí que surge a maior divergência dos pontos de vista entre os povos indígenas e as religiões ayahuasqueiras. As religiões buscam legitimar o seu uso urbano e a expansão para locais tão distantes no planeta quanto a fria Noruega ou o desértico Israel e com isso, a compreendem como patrimônio da humanidade.
Os povos indígenas, ao seu turno, entendem a declaração como uma apropriação de um conhecimento que é seu por origem e que portanto, tratando-se de patrimônio dos povos originários.
É a esse respeito que pretendo tecer considerações nesse artigo.
A expansão do uso da ayahuasca
Pesquisas apontam como a origem do uso da ayahuasca o vale do rio Napo, afluente do Marañon, entre povos de língua Kichua – uma língua aparentada do quéchua falado na montanha- em território hoje pertencente ao Equador.
Desde então, o uso da ayahuasca, aqui compreendido como o cipó Banisteriopsis caapi, passou por um processo de expansão e assimilação pelos povos nativos da Amazônia sub-andina.
Seria mais recente, portanto, o uso da ayahuasca nos vales do Putumayo, associado à chaliponga, e mais recente ainda no Ucayalli (Peru), já associado à chacrona (Psicitrya viridis).
A expansão teria continuado, até adentrar em terras hoje brasileiras e ser gradualmente assimilado pelas populações de seringueiros que com sua própria conotação religiosa deram origem às chamadas religiões ayahuasqueiras. A partir da institucionalização religiosa, o uso da ayahuasca encontrou seu caminho junto aos grandes centros urbanos do Brasil e a partir daí, ganhou o mundo.
Medicina ou religião
Pode-se dizer que a tendência mais forte dentro do contexto de uso da ayahuasca é afirma-la cada vez mais como uma ‘religião’. O suporte legal dado pela constituição brasileira à liberdade religiosa, já seria justificativa pragmática suficiente para enquadrá-la como ‘uso religioso’.
Mas, como seria o uso tradicional da ayahuasca entre os povos nativos? É possível enquadrá-la como ‘religião’?
O mais apropriado entre os povos nativos tem sido declará-la como ‘medicina’, que em alguns locais é quase um sinônimo para a ayahuasca. Parece mesmo que o uso mais corrente da ayahuasca tenha sido realmente para a cura e obtenção de saúde entre os povos nativos.
Abro aqui um parêntese para lembrar que em muitas culturas, não necessariamente os ‘pacientes’ façam uso da bebida, mas sim os ‘pajés’, que a usam como meio de prospecção da doença. A ‘cura’ efetivamente acontece a partir do tratamento, normalmente sob a forma de uma ‘dieta’ com a(s) planta(s), indicada(s) pela ayahuasca.
Há ainda o papel desempenhado pelas canções/orações como parte do processo de cura. Ou seja, esse tratamento está diretamente vinculado ao um sistema de conhecimento e/ou um conjunto de crenças místicas- uma cosmovisão- compartilhados por paciente e curador. Ou seja, em certa medida, é também um ato de fé.
Pensando ainda no contexto místico/religioso, é razoável supor que na medida em que houve a expansão deste conhecimento, seu uso fosse sendo adequado aos costumes e conjunto de crenças de cada povo, em uma dinâmica cultural própria dos povos indígenas antes da chegada do homem branco.
Nesse sentido, o uso religioso pelo homem branco, parece ser, de certo modo, a continuidade desse processo de expansão e adequação a essas novas realidades.
Legitimidade do uso
O enquadramento parece ser uma necessidade das religiões institucionalizadas, que compreensivelmente, querem assim evitar a banalização do uso da ayahuasca.
Ocorre que, se esse enquadramento carece de legitimidade se nele estiverem excluídos os direitos dos povos originários.
Para uma das religiões ayahuasqueiras isso pode ser um problema, já que um de seus fundamentos doutrinários pressupõe a negação da origem nativa da ayahuasca. Refiro-me especificamente à UDV, onde o uso da bebida é fundamentado por meio do mito de que o conhecimento do uso da ayahuasca tenha sido legado pelo lendário rei Salomão. A interpretação fundamentalista do mito da UDV leva à conclusão de que os povos indígenas não possuem legitimidade para o uso da ayahuasca. Seriam, em suas próprias palavras, apenas ‘curiosos’: sem conhecimento verdadeiro.
A afirmação tem colocado algumas lideranças em ‘pé de guerra’ denunciando a apropriação de seus conhecimentos tradicionais.
Já no Santo Daime, essa problemática parece ser mais diluída. Mestre Irineu teria recebido a Santa Doutrina de Nossa senhora da Conceição, mas não há referência clara sobre o uso nativo. Na prática, o Santo Daime tem sido mais permeável à presença indígena em suas igrejas, inclusive como convidados a entoarem seus cantos tradicionais.
Novos Aprendizes
Há ainda um novo contexto que surge como complicador dos enquadramentos propostos para o uso da ayahuasca. Ocorre que, um número cada vez maior de pessoas, tem buscado fazer o uso da ayahuasca fora do contexto das religiões institucionalizadas, mas dentro do uso chamado ‘tradicional’ dos povos indígenas.
Pode-se questionar quanto de ‘tradicional’ efetivamente existe dentro do uso indígena, já que ao menos no Acre, estes povos tem sido também influenciados pelas religiões, especialmente o Santo Daime, no uso que fazem da medicina das aldeias.
Surgem os jovens com violões, maracás e tambores, onde antes havia somente a voz do pajé. Músicas tradicionais recebem melodias que a fazem se assemelhar aos hinos do daime, ou mesmo aos pontos da umbanda.
Mas e esse não-índio, que participa das cerimônias na aldeia, que aprende cantos tradicionais e que possivelmente, irá também levar o formato de cerimônia das aldeias para outros centros urbanos?
Hoje, não podendo enquadrá-lo em outra categoria, esse aprendiz recebe o pejorativo rótulo de ’turista’.
Tampouco os povos indígenas parecem estar preparados (ou interessados) para fazer deste ‘aprendiz’, um reprodutor fidedigno daquilo que são os conhecimentos tradicionais de seu povo e dos ensinamentos dos seus mestres.
A dinâmica cultural, contudo, é viva, e não se prende a rótulos e enquadramentos. O processo de expansão de uso da ayahuasca irá continuar independente do que decidam os congressos. A ayahuasca irá sempre despertar o interesse de pessoas em locais tão longínquos como a Rússia ou o Japão. Para estas pessoas, ao menos uma vez em suas vidas, talvez seja necessário uma imersão na Floresta, em busca de conhecer nas raízes, a planta que a essa altura, já terá transformado suas vidas e suas percepções sobre a realidade.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Embiaras, a batalha dos séculos, tracajás em desova e outras historietas

Embiaras

Para quem já acompanha o blog Terranáuas há algum tempo, também já deve estar acostumado às suas ‘embiaras’.
Acontece que o blog foi criado especialmente para tratar de temas mais ligados às questões indígenas, ambientais e espiritualidade. Mas como realmente não há como fugir temas políticos, acabei criando a coluna ‘embiaras’. O próprio nome reflete um preconceito meu de que a política seria um tema menor, algo de menor importância e que não enche barriga. Isso porque embiara, para quem não sabe, significa caça pequena.
Minha própria concepção sobre a política ser algo menor, mudou, mas resolvi manter o nome porque gosto dele: embiara.
Isso porque já passei décadas de minha vida dizendo ‘OM’ pra tudo e se isso, por um lado me ajudou a não perder o eixo, por outro, não mudou nada a realidade à minha volta. Não há como fazer belos vasos de cerâmica sem sujar as mãos de barro, e o barro meus caros, é a realidade. Em seu livro, Tawantinsuyu, o Xamã Alonso Del Rio, explica, que na cosmovisão andina, não há como professar uma espiritualidade verdadeira sem antes desenvolver um profundo senso de amor pela realidade.
Assim sendo, a ‘isenção’ só existe como condição ideal, porém nunca real do ser humano. Sempre estaremos em maior ou menor grau, envolvidos nas questões que nos cercam, como sujeitos políticos. Há aquela velha máxima de que mesmo quando escolhemos ser apolíticos, esta escolha é política.
Portanto, vou deixar os falsos pudores de lado e ‘sujar as mãos de barro’ na realidade. Quem sabe ainda faço uns vasos bonitos.

Caçadores, à caça!

A batalha dos séculos

Não senhores. Esta não será uma disputa entre esquerda e direita, ou entre pobres e ricos. A eleição municipal deste ano em Cruzeiro do Sul será para escolher se a cidade entra para o século XXI ou permanece presa a mesmo coronelismo de tonalidades feudais do século XIX.

Carla não restringe seu eleitorado somente entre os tradicionais apoiadores da FPA no Juruá. Tanto que tem igualmente admiradores no campo da direita, em setores que sempre foram críticos ao PT e à FPA.

Primeiro, porque Carla transmite a segurança de quem, se for dada a oportunidade, irá gerir a coisa pública com a responsabilidade e transparência que tanto fazem falta na administração municipal.

Segundo, porque a delegada está muito, mas muito longe dos estereótipos dos militantes de esquerda, com suas frases feitas, seus bordões ultrapassados, e seu sectarismo.

Ainda assim, um olhar atento vê nela sim, uma política identificada com a esquerda. Não numa camisa vermelha, ou num punho cerrado, mas no olhar atencioso, no sentimento da importância da dignidade humana.


Escolher Carla Brito significa que escolher o novo, a modernidade. Significa escolher dizer que a política deve ser gerida por interesses públicos e não familiares. Escolher o mérito e não o nome.  A coisa pública, e não a ‘cosa nostra’.

Não sou guru ou vidente, para fazer previsões astrológicas sobre o resultado das eleições. Baseado nas conjecturas políticas de pretensos 'especialistas' o mais acertado seria dizer que o povo vai quer sempre 'mais do mesmo'. 

Quero pensar que não, e que o desejo de mudança possa ser traduzido na forma do voto em Carla Brito.

O meu voto, está definido em Carla Brito e nunca antes, em uma eleição municipal, terei dado um voto com tamanha convicção.

Fica o leitor portanto sabedor de minha própria posição política, o que considero mais honesto do que escamotear minha opinião por trás de uma falsa isenção.

Dito isso, vamos portanto à análise

Esta será minha quarta eleição municipal da qual participo em Cruzeiro do Sul. Cheguei na cidade do ano de 2000, as vésperas da eleição que deu a César Messias a prefeitura da cidade. Depois disso tivemos: Henrique (PT) X  Zila (PTB). Zinho (PP) X Vagner (PMDB) e novamente Henrique (PV) X Vagner. 

Como todos sabemos, em nenhuma dessas ocasiões a FPA conseguiu eleger o seu candidato. Ainda que sempre mantivesse uma pequena margem de diferença em relação ao vitorioso. Um destaque para Henrique Afonso em 2012, que definitivamente, venceu Vagner Sales na área urbana da cidade.

Henrique crê, e com acertada dose de razão, que é um bom nome para a disputa da prefeitura de Cruzeiro do Sul, mas que sua aproximação com a FPA foi o fator decisivo para sua derrota. Nunca faltou gente para dizer 'gosto do Henrique, mas ele é do PT' (mesmo quando ele disputou pelo PV), assim como não faltará gente para dizer 'gosto da Carla, mas ela é do PT, mesmo que ela seja do PSB, partido que fez oposição à Dilma e faz parte da base de apoio ao governo Temer.

Esse tipo de eleitor, que 'gosta do candidato fulano, mas não vota porque ele é do PT' é um 'brincante': sempre vai votar nos candidatos indicados dentro da mesma estrutura patriarcal-coronelista que domina a cidade. 

Há um eleitor 'cativo' que vota na FPA, ou por afinidade com o modelo, ou por rejeição às figuras políticas locais, normalmente pactuadas com feudos familiares e aos setores a quem mais interessa o atraso social e a dependência econômica da população.

De modo antagônico, outra parcela da população, sempre viu no voto dos candidatos de oposição ao governo, uma forma silenciosa de resistência, seja às vontades da corte riobranquense seja ao vermelho do PT. Por essa lógica, os candidatos de oposição ao governo, depois de eleitos, nunca precisaram fazer muita coisa para viabilizar-se politicamente. Bastava, é claro, continuar na oposição ao governo. Quanto mais xucra e anedótica possível essa oposição, melhor, mesmo que isso custe um atraso de mais de uma década no desenvolvimento da cidade. 

E o que há de diferente nessa eleição, ou mais especificamente, na candidatura de Carla Brito?

Tracajás

A ironia é que a 'forasteira' Carla Brito é justamente a mais 'cruzeirense' das candidaturas. Carla está totalmente apoiada em um trabalho realizado em Cruzeiro do Sul. Não em Brasília ou Rio Branco. Por aqui o que não faltam são os 'cruzeirenses' que passam anos fora, montam suas vidas em outras cidades e como os tracajás que não moram na praia, voltam nela na época de 'botar os ovos'.

Pela primeira vez, temos uma candidatura que se articula por afinidades de princípios e não por determinações de caciques. É por isso que não estranha, por exemplo, que Carla, 'uma mulher da lei' possa encontrar apoios tanto entre militantes de esquerda, quanto entre aqueles normalmente mais conservadores e identificados com a direita. O primeiro anseio é de que o candidato seja comprometido com a transparência, com a ética na política. Carla satisfaz esse anseio do eleitor e por isso tem sido capaz de agregar pessoas para além dos 33%, 'cativos' da FPA. 

Carla já é um fenômeno e a pesquisa fajuta do PMDB que a coloca com 11%, antes mesmo de ser lançada, é somente mais uma prova disso. 

O que mais impressiona é a capacidade de Carla agregar pessoas das mais diversas, de trazer de volta o interesse político para um tipo de eleitor que sempre via nas eleições, 'mais do mesmo'.

Química

Nas próximas semanas, Carla deverá iniciar o processo de consulta pública para o Plano de Governo. 

Sim, isso mesmo, Carla, a 'forasteira' respeita a vontade dos cruzeirenses e vai ouvir a nós todos, antes de registrar o seu plano de governo. Você foi ouvido no plano dos demais candidatos?    

Nesse processo, poderemos mensurar como será a química Carla + Povo. 

Sendo também eu um 'forasteiro' com dezesseis anos de Juruá, eu aposto, que a Pernambucana de Petrolina consegue se identificar, falar e sobretudo, ouvir a linguagem do povo, bem mais do que alguns tracajás que desovam nessas praias a cada quatro anos.

Digo isso imitando para mim mesmo um sotaque pernambucano e ouço, lá no Cais do Porto, uma resposta em alto e bom 'acreanês':


- Má vai mermo!