sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre a crise civilizatória e os espelhinhos

Em uma provocação nas redes sociais, o cientista político Moysés Pinto Neto questiona à sua rede sobre o que deveríamos fazer para evitar o avanço do nazi-fascismo na política. A provocação, obviamente, é muito bem vinda pois ocorre quase que imediatamente após a marcha dos supremacistas na Virgínia e o anuncio de que o candidato proto-fascista brazuca Jair Messias, já obtém 25% das intenções de voto.

De nodo um tanto jocoso, sugeri que fossem distribuídos ‘espelhinhos’ aos brasileiros, como no início da colonização. A esperança era de que, quem sabe, olhando-se no espelho, o brasileiro talvez pudesse se reconhecer como exatamente o oposto do que se propõe um marcha pela ‘supremacia branca’.

Somos um povo tão mestiço, que o simples ‘olhar no espelho’ deveria ser suficiente para afastar o fantasma do nazi-fascismo. Na ‘melhor das hipóteses’ um branco brasileiro descendente ‘puro’ dos portugueses já chega aqui como um amálgama de dezenas de diferentes povos: iberos, celtas, latinos, germânicos, alanos (iranianos), berberes (mouros), ciganos e judeus estão na formação étnica de Portugal. Se você se olhar no espelho e ver um louro, branco de olhos azuis, a partir de uma concepção racial, o mais provável é que você que esteja na latitude ‘errada’.

Mas isso é só o preâmbulo. O Brasil só faz sentido enquanto nação, se for capaz de abraçar a diversidade étnico-racial que o compõe. Por isso nada mais contraditório do que uma ‘defesa da civilização brasileira’ que se baseie em uma concepção restrita do que é essa civilização e do que pode significar essa identidade brasileira.

Segundo o IBGE de 2010 temos 47,51% da população que se declara como branca, enquanto a outra parte maior se divide entre pardos (43,42%), pretos (7,52%), indígenas (0,43%) e amarelos (1,11%).
Entre os povos indígenas, o mesmo IBGE nos fala de 305 diferentes povos e 264 diferentes línguas no Brasil.

Temos diferenças regionais que distanciam os olhares e perspectivas de um brasileiro morador de uma área ribeirinha do Pará ou de uma capital como Curitiba. Cada um tem uma ideia diferente do que é ser brasileiro, ainda assim, os dois o são.

Esses apontamentos trazem obviedades que, espero, sejam conhecidas pela maioria das pessoas. O ponto é: somente faz sentido uma defesa da civilização que abarque todas as possibilidades civilizatórias em nosso território. Qualquer tentativa ou iniciativa de padronização ou de redução a um molde, ainda que se apresente como ‘defesa da civilização’, será justamente o contrário disso: a destruição do enorme conjunto de possibilidades civilizatórias em nosso país.

Nos EUA, os grupos que se opõe à concepção supremacista branca, o fazem a partir de uma defesa da diversidade cosmopolita que passou a identificar metrópoles como Nova Yorque ou ainda, a cooperação entre gente de tantas partes diferentes do mundo que proporciona os avanços tecnológicos do vale do silício. A questão é que se para eles: uma nação branca, anglo-saxônica e protestante, a defesa da diversidade tem importância, para nós, brasileiros isso é bem mais importante: a diversidade é a espinha dorsal de nossa identidade.

Realmente não consigo levar com seriedade ‘supremacistas brancos’ brasileiros.
Para os supremacistas do norte, não somos brancos, jamais seremos. Somos latinos, ibéricos, hispano-americanos. Ser mestiço é parte de nossa identidade.

Ainda assim, ouço as vozes de Charoltesville ecoando por aqui. Claro que seremos incapazes de promover algo como uma ‘homogenização da raça’. É infactível. Mas talvez caminhemos para algo como um auto-etnocídio enquanto nação e enquanto possibilidade civilizatória.

A crise política, econômica e civilizatória, é sobretudo, uma crise de identidade. Precisamos aprender a nos olhar no espelho e afastar a repulsa de quem não vê um ‘branco, anglo-saxão, protestante’. Precisamos olhar no espelho e aprender a amar quem de fato somos, ou quem sabe, melhor ainda: amar aquilo que ainda poderemos ser, se não matarmos antes todas as possibilidades civilizatórias contidas em nosso território.


Eu como brasileiro, não posso aceitar um país menor do que o que ele é. Nenhum brasileiro deveria.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O equívoco Neoxamânico é gigantesco. Mas em nosso mundo, o que não é?

Faço esse texto estimulado sobretudo pelo irrepreensível artigo do Dr. Jacques Mabit, publicado originalmente na ‘Revues Synodies “Le transpersonnel?” e traduzido do francês para o português por José Pimenta. (1)

O artigo trata essencialmente de como os brancos vem idealizando seus ‘gurus indígenas’, e de como, entre outras coisas, trata-se de um grande equívoco comparar pajés, xamãs e curandeiros com os mestres transcendentais das tradições orientais. De fato, há uma grande confusão na tentativa de fazer encaixar o xamanismo ayahuasqueiro amazônico dentro das expectativas de transcendência das classes médias urbanas. Por isso, recomendo muito a leitura do artigo: O MAL-ENTENDIDO NEOXAMÂNICO PODE SER GIGANTESCO, publicado no blog Crônicas Indigenistas.
Esta breve postagem, não se trata portanto exatamente de uma crítica ao artigo. Apenas o tomo como ponto de partida para prosseguir na reflexão.

Pois sim, voltando ao título-pergunta: O equívoco Neoxamânico é gigantesco. Mas o que em nosso mundo, não é?

Afinal, corremos o risco de achar que o mal-entendido esteja delimitado ao universo do ‘neoxamanismo’. Ah! Se sêsse! Diria o poeta nordestino.
Poderia começar apontando os equívocos a um dos pilares do pensamento ocidental: a concepção aristotélica que divide homem e animal, natureza e cultura. Aristóteles nos fez crer que os animais não possuiam linguagem e com base nessa concepção EQUIVOCADA construiu a base do pensamento ocidental.  Contudo, quanto mais evoluem os métodos de observação científica, mas difícil fica determinar uma linha exata que nos separe dos animais. Animais tem linguagem. Animais produzem ferramentas. Animais têm organizações sociais mais complexas do que supunham nossos preconceitos. Animais transmitem conhecimentos adquiridos. Um equívoco bem maior e de consequências bem mais nefastas. E que no entanto, está nas bases do pensamento ocidental.

Outra base de nosso pensamento ocidental se dá pelo paradigma judaico-cristão. Noções de céu e inferno, pecado e perdão, Deus e o Diabo permanecem vivas em nossa sociedade e continuam a influenciar nosso modo de pensar. Mesmo àqueles que se dizem ateus. Trata-se pois, de ideias que formam a base de nossa civilização, que podem não passar de um grande equívoco, ou uma coleção de concepções equivocadas, forjadas ao longo do tempo para melhor acomodar os conceitos sociais de cada época.

Poderia ainda passar dias debatendo sobre as linhas filosóficas e suas refutações e contra-refutações que tão brilhantemente ocupam a vida acadêmica. Aliás, o que seria da vida acadêmica sem os equívocos.

Digo isso, quase como uma forma de ‘aliviar’ a turma do neoxamanismo. Não haveria como jovens de classe média urbana ‘acertarem’ de primeira quais os ‘valores’ que movem o ‘xamanismo de raiz’.

Quem está em uma busca, nunca sabe ao certo o que vai encontrar. Colombo, por exemplo, encontrou a América, mas buscava a Índia. Mais um equívoco histórico.

‘A sociedade de consumo faz florescer esta forma de xamanismo’

E por falar em ‘valores’, mais um equívoco: a ideia de que a cobrança em valores monetários seja uma ‘deturpação’ dos ‘valores espirituais’ do xamanismo. Um concepção equivocada. Sobre isso, recomendo muito a leitura do texto ‘As raízes do Xamanismo Moderno’, de Gayle Highpine.(2). É dela a frase neste subtítulo: ‘A sociedade de consumo faz florescer esta forma de xamanismo’
Em seu artigo, a etnobotânica esclarece que já era comum antes mesmo da chegada do homem branco, nas comunidades do Alto rio Napo, que seus xamãs cobrassem algum tipo de ressarcimento quando realizavam trabalhos fora de suas comunidades. A autora explica que o pajé ou xamã está obrigado por laços de parentesco, a cuidar de sua comunidade. Em troca, recebe o cuidado da sua comunidade para consigo. Para além destes limites, não há obrigação e portanto, há que se buscar novas formas de compensação. A autora ainda discorre que, foi justamente esta fluidez que possibilitou no passado o surgimento de uma rica cultura ayahuasqueira, espalhada pela Amazônia ocidental entre as bacias dos rios Napo, Ucaially e Putumayo - com as trocas de informações entre as diferentes comunidades. Segundo a autora, esse movimento seria responsável pelo florescimento HOJE desta cultura ayahuasqueira.
Se olharmos para o passado, de povos indígenas que viviam, não isolados, mas como uma intrínseca rede de cooperação e colaboração (e às vezes conflitos também, que ninguém é de ferro!), talvez não nos surpreendamos tanto, com a reprodução destas redes na sociedade pós-industrial.
Essa é uma das razões pela qual não vejo com maus olhos, todo esse movimento em torno do rapé, ou mesmo da ayahuasca por exemplo. Significa um aporte financeiro a estas comunidades, cujas necessidades não irão cessar caso este fluxo seja interrompido. Quem já visitou uma comunidade no Acre, por exemplo, sabe da grande necessidade de combustível e peças de reposição para embarcações. Além é claro de necessidades individuais que surgem a partir do contato. Não serão nossas utopias de ‘pureza transcendental’ que irão melhorar suas condições de vida.
Um dos resultados práticos desse movimento, é o maior interesse dos jovens indígenas, pela forma de fazeres e reprodução cultural. A possibilidade de algum ganho material, reforça esse interesse.  

O Xamã como ‘aquele que sai’   

Outro aspecto que merece ser destacado é sobre as idas e vindas de pajés e aprendizes. Diz o preconceito comum de que ‘índio deve ficar na aldeia’. Mas não é assim que era no passado, quando os povos indígenas podiam andar livremente pelo continente. Estão suficientemente documentadas as relações de comércio que ocorriam na América antes da chegada do homem branco. É certo que estas relações não se limitavam apenas ao comércio tal qual como concebemos hoje. É possível que ocorressem de modo mais ou menos cerimonial e ritualístico, já que boa parte destes objetos de troca possuíam valor simbólico, afetivo, espiritual, ou mágico, como por exemplo: conchas e penas. Talvez nos surpreendêssemos ao descobrir que alguns dos itens do chamado ‘comércio do sagrado’ já eram negociados antes mesmo de Colombo. De maneira análoga, podemos pensar nas feiras medievais e o comércio associado de imagens e relíquias. Ou seja, nada de novo sob o Sol.
Eduardo Luna vai mais além: ‘O Xamã é aquele que transcende os limites da sociedade e vai para fora, onde há poder’. (3)
É possível pensar que os xamãs que alcançam mundos distantes através dos sonhos e das plantas maestras, aprenderam também a viajar pelas mesmas ‘Veias abertas da América Latina’ de onde foi retirado ouro, prata, diamantes, madeira... E quem irá poder condená-los por isso?

‘Equivocação controlada’

A antropóloga da USP Aline Ferreira Oliveira, em seu artigo (4), cita a expressão cunhada por Viveiros de Castro de ‘equivocação controlada’, para explicar o uso e adaptação da linguagem dos pajés amazônicos ao contexto urbano.
Diria que não há outro caminho para o encontro entre jovens de classe média urbana e pajés (ou aprendizes) amazônicos que não passe pelo equívoco. Para entender-se e fazer-se entender é preciso minimamente ‘equivocar-se’, mas trata-se de uma ‘equivocação controlada’ sem o que, afinal, não haveria linguagem possível.  
É ainda a mesma autora que nos fala sobre a ‘produção dos corpos para circulação do conhecimento’ por meio das dietas, tal qual vem ocorrendo especialmente entre os Yawanawá e Huni Kuin.
Os indígenas tem tratado portanto, de ‘capacitar os brancos a fazer bem feito’, em um processo que podemos compreender como a continuidade, ou uma nova etapa daquilo que os indígenas do Acre denominam ‘amansar os brancos’.

Viva o vazio da Classe Média!

Por fim, queria aqui dar um viva ao vazio da classe média! Dizem as filosofias orientais que somente um copo vazio pode receber um novo conteúdo. Aliás, eu próprio venho há anos tentando esvaziar o meu, e olha... Que difícil!
Estes jovens de classe média urbana que não veem mais motivação em trocar de carro todo ano, frequentar o clube da moda, ou assistir à UFC estão se voltando, de um jeito de outro, às culturas antigas, porém vivas de povos milenares e que, ainda que equivocadamente, certamente tem muito a nos ensinar.
Se tivesse algo a lamentar sobre todo este processo, não seria pelas viagens dos pajés ou a comercialização em torno do sagrado, mas principalmente pela carência de uma maior organização formal que pudesse melhor interpretar, reinterpretar, debater, discutir, explicar a rica epistemologia que envolve este aprendizado. Lamento não haver algo semelhante a uma universidade em que tudo isso pudesse ser ensinado de maneira mais ou menos sistematizada e que houvessem até quem sabe, bolsas de estudo. Lamento sobretudo saber que sábios da floresta como, Tatá, falecido no ano passado, se vão sem deixar rastro (ainda que deixem sim, muitos discípulos, graças em parte a todo esse movimento) ou como o centenário Yawarani, cuja profundidade do entendimento da cultura Yawanawá o faz um erudito, sem contudo obter o reconhecimento que deveria da sociedade.
Os processos que ocorrem hoje, dentro daquilo que alguns denominam como sendo o ‘circuito do exotismo no Brasil’ ainda que ‘mal enjambrada’ se apresenta como a melhor saída possível para a permanência e reprodução de uma forma de conhecimento. 

Empatia e Alianças

É preciso que se diga também que nestas trocas há ainda um subproduto muito valioso: a empatia. São tempos duros para os indígenas no Brasil (sempre foram, mas ultimamente a ofensiva parece ainda maior). Angariar a empatia no meio urbano e tratar de estreitar laços com potenciais aliados me parece ser parte de uma estratégia política ainda mais ampla e quem vem sendo alcançada com relativo sucesso. Alianças proporcionam uma troca de maior valor que pode beneficiar a um indígena específico, um grupo, ou a toda comunidade. Cada povo tem uma dinâmica diferente em relação a construção destas alianças mas quão bom seria se todos pudessem contar com uma rede de apoiadores no meio urbano.

Auto Regulação

Me soa meio distópica a ideia de órgãos federais regulando o livre trânsito das medicinas, itens do ‘sagrado’ (em alguns casos acho justificável, quando por exemplo, trata-se material proveniente de animais silvestres) e mesmo do conhecimento.

Por isso penso que o melhor seria a auto-regulação.
Não se pode debitar na conta do neoxamanismo a existência de falsos pajés. Falsos médicos, falsos advogados e falsos jornalistas estão aí aos montes, mesmo sendo estas profissões regulamentadas (exceto jornalismo, graças a Gilmar Mendes). Em suas respectivas aldeias, contudo, todos sabem quem é e quem não é pajé e o ‘processo de certificação’ posso garantir que é bem mais rigoroso que o exame da OAB, por exemplo.

Mais interessante que termos um órgão oficial emitindo ‘carteirinhas de pajé’, seria se estas próprias comunidades fossem capazes de definir isso. Nos países vizinhos, Equador, Colômbia e Peru existem formas de federações que dão algum respaldo a isso, apesar que no final das contas o que vale mesmo é a reputação construída na própria comunidade. Ainda assim, parece ser uma alternativa interessante que daria algum respaldo oficial aos indígenas em viagem e quem sabe, responder quando algum órgão de governo, empresa, ONG ou meio de comunicação meter os pés pelas mãos, como aconteceu com a Folha de São Paulo na reportagem sobre ‘Rapé na Balada’.

Se observarmos com atenção, talvez vejamos que há muito menos de exótico nessas trocas entre indígenas e brancos de classe média do que se imagina.

O exotismo aliás, é como o sagrado: está nos olhos de quem vê.


_________________________________________________________________________________

1. MARBIT, Jacques. Traduzido por José Pimenta. O Mal-Entedido Xamânico pode ser Gigantesco. 2. HIGHPINE, Gayle. 'As Raízes do Xamanismo Ayahuasqueiro Moderno' fragmento de 'Unraveling the Misteries of the ayahuasca origins'
3. LUNA, Luis Eduardo. 'Ayahuasca e o Conceito de Realidade'
4. OLIVEIRA, Aline Ferreira.Plantas, dietas, éticas yawanawa: iniciações xamânicas contemporâneas.(FFLCH/USP/Universidade de São Paulo).

Imagem: Al Vivero

IMDr. Jacques Mabit